Como supremacistas brancos estão pegando carona no conservadorismo americano

Por Hugo Silver [*]

Supremacistas brancos estão tirando vantagem da batalha cultural do conservadorismo para ganhar notoriedade e serem assimilidados no mainstream. Tais grupos ainda são pequenos, mas tratam-se de um câncer que deve ser eliminado antes que cresça e gere resultados indesejados.

DESDE OS ANOS 60, a esquerda americana mobiliza movimentos revolucionários e, por meio deles, emprega a violência como forma de intimidação. Entretanto, após 8 anos de extrema polarização racial durante a presidência Obama, vemos hoje uma verdadeira insurreição de facções coletivistas e suas ideologias identitárias (movimento negro, feminismo, LGBTQ, etc.) que substituíram a velha luta de classes do marxismo clássico (burguesia versus proletariado) pelo ideário da luta entre o “oprimido versus opressor”. Apesar de suas diferentes ênfases, todas estas facções identitárias possuem um inimigo em comum: o homem heterossexual branco e cristão, suposto detentor de privilégios imerecidos, adquiridos em virtude de sua raça, sexo ou religião. Estes grupos alegam que o sexismo, o racismo e demais formas de opressão são inerentes ao capitalismo e às instituições da sociedade americana; que as injustiças do passado precisam ser corrigidas por meio de políticas afirmativas e, sempre que necessário, por meio da violência.

A vitória de Donald Trump foi o veredicto do povo americano contra a ideologia identitária da esquerda. Um voto por Donald Trump foi um voto a favor do capitalismo, um voto contra o coletivismo e pelas liberdades individuais, pelo respeito à história dos EUA e seus símbolos patrióticos, e por todas as demais coisas que fizeram dos Estados Unidos um grande país. Os americanos, em sua vasta maioria, reagiram por meio de uma revolução pacífica e silenciosa, destronando, por meios democráticos, os revolucionários que desejam, através do caos, destruir a América e construir um “paraíso igualitário” sobre as suas cinzas. Entretanto, toda reação vem com suas doses de extremismo: à medida que as ideologias identitárias são forçadas goela abaixo da população por meio da imprensa e da Academia, é de se esperar que uma reação extremada surja na forma de uma ideologia identitária para brancos.

Podemos tomar como exemplo a chamada “Direita Alternativa”, ou Alt Right em inglês – uma associação informal de movimentos que pregam contra o politicamente correto, contra as políticas afirmativas e contra a política de fronteiras abertas do Partido Democrata. Apesar de sua agenda aparentemente conservadora, seus principais expoentes como Richard Spencer, Jared Taylor e Vox Day são supremacistas brancos assumidos com a diferença de que, em contraste com os trogloditas da KKK, são carismáticos e articulados. Pela maneira sofisticada e inteligente de que refutam o multiculturalismo, o feminismo e o racismo reverso (contra brancos) que emanam das elites progressistas, a Alt Right tem sido normalizada por alguns conservadores brancos cansados de serem demonizados pela esquerda e culpados pelos pecados sociais de gerações passadas. Steve Bannon, editor do website conservador Breitbart, declarou que a Breitbart é “o ponto de encontro da Alt Right” e Jared Taylor – que advoga em favor do segregacionismo e de uma suposta superioridade da raça branca com relação à raça negra – participou de entrevistas bastante amigáveis nos programas de Stefan Molyneux e Gavin McInnes.

Richard Spencer, nacionalista branco e administrador do AltRight.com

À primeira vista, a Alt Right e o conservadorismo mainstream falam a mesma língua, principalmente quando a Alt Right denuncia os agentes do marxismo cultural em sua cruzada contra a chamada “Civilização Ocidental”. Entretanto, para o conservador típico, a “Civilização Ocidental” é um conjunto de valores e tradições que, se preservados, levarão à ordem social e à prosperidade de um grupo de pessoas, independentemente de raça. Já para os expoentes da Alt Right, ideologia e raça são intrinsicamente inseparáveis, sendo a “Civilização Ocidental” um sistema criado por brancos e incapaz de ser gerido por não brancos. Deste conceito deriva sua oposição ferrenha à imigração de não caucasianos aos EUA, seja ela legal ou ilegal.

O conservadorismo rejeita o multiculturalismo, mas defende a assimilação cultural, ao contrário da Alt Right. O conceito que defendemos, conhecido como “Civilização Ocidental”, não é fundamentado em raça, mas sim em ideias. A ênfase na liberdade do indivíduo e suas responsabilidades pessoais, o entendimento de que todos os homens são criados iguais e dotados por Deus (não pelo Estado) por direitos inalienáveis (como vida e liberdade) a serem protegidos por um governo eleito pelo povo, em um sistema de freios e contrapesos (separação de poderes) – esses são os pilares nos quais se sustentam a ordem e o progresso. Supremacistas brancos negam o conceito de que todos os homens são criados iguais, contido no segundo parágrafo da Declaração de Independência dos EUA. Apesar de representarem uma porção minúscula dos americanos, estes grupos precisam ser veementemente rechaçados pela chamada “direita conservadora” antes que o câncer se espalhe. O flerte entre movimentos como a Alt Right e o conservadorismo mainstream contribui para o surgimento de um efeito colateral indesejado na luta contra o multiculturalismo: a normalização da ideologia identitária branca, que nada mais é do que o vitimismo racial em sua versão anglo-saxã, promulgado por brancos que enxergam o mundo de uma perspectiva de soma-zero (assim como os marxistas que dizem combater) e, consequentemente, sentem-se ameaçados pela presença de judeus, negros e imigrantes não caucasianos em seu país.

Coletivos como Black Lives Matter e Antifa, assim como os movimentos supremacistas, são somente retalhos diferentes extraídos do mesmo corte de tecido. Ambos são aberrações paridas da mesma mãe chamada “ideologia identitária”, que encontram em seu oponente a razão de sua existência e se abraçam em um processo infinito de retroalimentação: diante de políticas identitárias para negros, surge uma política identitária para defender os interesses da raça branca; a partir do surgimento/crescimento de uma ideologia identitária para brancos, emergem coletivos terroristas como o Antifa – e assim por diante. Ambas as facções são um câncer a ser confrontado na sociedade. E o conservadorismo autêntico é aquele que se desponta como uma alternativa à ideologia identitária, seja branca, negra, feminista ou LGBTQ. Sua missão é inundar o imaginário popular com uma mensagem positiva e inclusiva, fundamentada na experiência humana, na sabedoria acumulada de múltiplas gerações, através da exposição de princípios que comprovadamente trazem liberdade, ordem social e prosperidade aos indivíduos, famílias e nações que os adotem.

VEJA TAMBÉM: Vídeo da Prager University, traduzido pelos Tradutores de Direita: “O Que é a Alt-Right

[*] Extraído de “Supremacistas brancos e Antifa: dois retalhos do mesmo tecido“. Locus Online, 18 de setembro de 2017.

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