Como Seria uma Revista em Quadrinhos Conservadora?

Por Darin Wagner [*]

O título da minha coluna esta semana (que na verdade dá seguimento à coluna da semana passada) vem de uma pergunta que me foi feita por fãs e profissionais de quadrinhos em vários fóruns nos últimos anos. A pergunta foi feita tanto retórica quanto sinceramente, e minha resposta tende a diferir da grande maioria das respostas oferecidas por não-conservadores.

Para aqueles de vocês que precisam de alguma definição de conservadorismo tal como diz respeito a esta coluna, estou me referindo especificamente ao conservadorismo americano … que tem vários princípios, incluindo a superioridade moral da liberdade; é caracterizada pelo capitalismo, pelo governo pequeno e pelos direitos do indivíduo.

Em termos simples, um quadrinho conservador seria aquele que regularmente e simultaneamente apresenta e explica o conservadorismo.

Para ilustrar isso, voltarei a um cenário da minha última coluna. Digamos que monstros derretidos do centro da Terra estejam causando perturbações sísmicas no oceano e ameaçando uma plataforma de petróleo. Num quadrinho de esquerda, o super-herói ou algum outro personagem com alguma credibilidade dentro da história mencionaria em algum momento durante a ação (provavelmente como um comentário sarcástico) que essas plataformas teriam sido construídas e operadas de forma irresponsável. Eles chegariam ao ponto de aproveitar a ocasião para promover a chamada energia “verde” e/ou também desferir socos contra a América corporativa e o capitalismo. As idéias básicas transmitidas seriam as de que plataformas de petróleo são ruins, que o petróleo é ruim e que a humanidade realmente não deveria empreender a perfuração de petróleo. Numa HQ conservadora nada disso seria mencionado. Em vez disso, o que você poderia esperar é o protagonista falar sobre como a perfuração de petróleo é estatisticamente segura, sobre como o petróleo é importante para a humanidade, que maravilhas tecnológicas modernas são as plataformas de petróleo ou como a equipe de controle de danos da plataforma respondeu bem à essa crise incomum. (Elogiar a equipe de controle de danos repercutiria positivamente sobre a empresa para a qual trabalham e implicaria que a empresa é uma entidade responsável … ao contrário de como as empresas de petróleo são tipicamente retratadas quando há uma inclinação esquerdista.) Agora alguém pode dizer “Mas Darin, o Aquaman da DC e o Namor da Marvel têm um histórico de aversão para com o “mundo da superfície” e demostrado grande preocupação com o ambiente oceânico. Como esses personagens podem ser usados para “apresentar e explicar o conservadorismo”, como você diz?” De fato, Aquaman e Namor foram retratados como sendo um tanto irritadiços de tempos em tempos quando se trata dos padrões e práticas da superfície. Não me parece tão fora do personagem para qualquer um desses super-heróis oferecer um monólogo lamentando o fato de que o excesso de zelo dos ambientalistas da superfície tenha empurrado a perfuração de petróleo para longe da terra firme e cada vez mais para dentro do domínio deles. Acho que esses dois prefeririam a perfuração on-shore à perfuração off-shore em qualquer dia da semana.

Agora, será que uma história que apresentasse momentos como os que eu acabei de descrever destacariam-se nas prateleiras hoje? Acho que sim. A maioria das reações iria variar de “Eu nunca pensei nisso!” até “Quem escreveu isso é um louco!” Sem dúvida não seria algo que a maioria dos leitores esperaria ver vindo da Marvel ou da DC nos dias de hoje.

Se perguntados sobre como seria um revista em quadrinhos conservadora de super-herói, muitos não-conservadores reagirão com indiferença com algo do tipo: “você quer dizer, um super-herói que seja A FAVOR da poluição?” Aqueles que tentam pensar um pouquinho mais vêm com cenários onde um super-herói cobraria uma taxa por seus serviços e não salvaria aqueles que não estivessem em dia com seus pagamentos. Descrevem um super-herói salvando apenas os brancos ou não respondendo a um desastre ocorrido em um bairro pobre … em suma, descrevem um super-herói que não é heróico. É por esta razão que quadrinhos conservadores precisariam de um escritor e/ou editor também conservador. Se você se dirigir à maioria dos escritores que trabalham com quadrinhos hoje e pedir a eles para fazer um quadrinho conservador, acho que aqueles que concordariam em tentar viriam com algum tipo de Stephen Colbert em versão de super-herói… um espantalho que não pretenderia representar o autêntico conservadorismo, mas sim para retratá-lo como uma piada e na verdade apoiar o ponto de vista oposto.

Para um exemplo melhor de como seria uma história conservadora de super-heróis, chamo sua atenção para um filme que a maioria de vocês provavelmente viu…

Em 2009 o site da revista National Review, de William F. Buckley, classificou o filme de super-heróis da Pixar Animation Studio Os Incríveis o segundo “Melhor Filme Conservador dos Últimos 25 Anos”[1]. O site descreveu o filme como se segue: “Referências culturais e piadas grosseiras a favor de uma história que celebra o casamento, a coragem, responsabilidade e realizações elevadas”. O conservadorismo em Os Incríveis é sutil em sua maior parte … mas sem dúvida está lá. Lembro-me de quase pular da cadeira do cinema quando Helen diz a Dash que “todo mundo é especial” e Dash murmura “o que é outra maneira de dizer que ninguém é especial.” “Todo mundo é especial” é algo que lembro ter ouvido muito na escola pública… era algo que meus professores esquerdistas sempre diziam na tentativa de nos unir a todos, mas o que realmente fizeram foi sufocar nosso senso de realização e individualidade. Em outra parte do filme, quando o supervilão exprime sua variação desse ditado ao resumir seu plano maligno de longo prazo (“Quando todo mundo for super, ninguém mais vai ser super!”), eu dei um soco para cima mentalmente. Muitas vezes pensei na história desse filme como “o anti-Watchmen, por ser um olhar diferente sobre as idéias contidas naquela história em quadrinhos dos anos 80. Apesar de as duas histórias contarem com ex-super-heróis lidando com um banimento a super-heróis, ambos são muito diferentes entre si. Em Watchmen, os personagens que representam o “conservadorismo” são sádicos, loucos genocidas e casos trágicos de insanidade. Em Os Incríveis, o conservadorismo é representado por uma família.

Já que mencionei Watchmen, alguns podem estar se perguntando: “E que tal Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge?” Claro, CTR também lida com uma proibição a super-heróis. Claro, há conservadorismo em CTR. Mas há um monte de outras coisas lá também. Acho que, no momento atual, a indústria de quadrinhos precisa de mais histórias como a de Os Incríveis do que como a de CTR. Não posso recomendar CTR para o pai de uma criança que tem o potencial de ficar viciada em quadrinhos passar o resto da vida dando dinheiro para a indústria.

Alguém disse recentemente que os quadrinhos sempre foram algo subversivo. Acho que agora, neste mundo de escalada do estatismo, de doutrinação multicultural obrigatória e de ambientalismo desenfreado … revistas em quadrinhos conservadoras seriam, essas sim, os verdadeiros quadrinhos subversivos.

[*] Darin Wagner. “What Might A Conservative Comic Book Look Like?” Bleeding Cool, 12 de Janeiro de 2012.

Tradução: Felipe Alves

Revisão: Rodrigo Carmo

[1] Muitos devem estar se perguntando qual foi o filme n.º 1. Serei legal com vocês. Foi um filme chamado “A Vida dos Outros” (2007).

5 comentários

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  • Não quero parecer oportunista, mas será que posso aproveitar para fazer meu jabá aqui?

    Escrevi um romance, e agora estou publicando-o na internet, aos poucos e gratuitamente. No ano que vem pretendo vender cópias em e-book e impressão sob demanda, mas a versão gratuita no site continuará disponível.

    Em suma, é uma história de fantasia, e o objetivo é defender valores: família, força de vontade, resistência ante à adversidade, heroísmo, palavra. Não sou exatamente um conservador, estou mais do lado liberal da coisa, mas moral e valores são fundamentais para uma sociedade prosperar.

    Eis a sinopse, para quem interessar. Já estão disponíveis o Prólogo e o Capítulo 1. O segundo capítulo será liberado dia 30:

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    Entre a caatinga e o mar, a Cornália é uma terra hostil, governada por coronéis, ameaçada por cangaceiros e habitada por feras lendárias.

    É uma época de terror. O Rei do Cangaço se ergue no leste, isolando a região e espalhando violência em sua cruzada sangrenta.

    Porém, quando o errante Zé Calabros, cabra-macho do sertão, salva a vida de um náufrago misterioso, inicia-se uma travessia perigosa por essa terra fantástica.

    No caminho, nossos heróis insólitos — e também você, leitor — encontrarão engenhos terríveis, feiticeiros poderosos, monstros selvagens e bandidos cruéis.

    Esta é a jornada de Zé Calabros na Terra dos Cornos.

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    http://www.as-cronicas-animicas.com

  • David Bacon

    Embora entenda que Alan Moore tem um viés de esquerda, acho Watchmen uma obra tão complexa que permite sim a visão conservadora. Eu sempre enxerguei o Rorschach como o representante do pensamento conservador dentro da história, enquanto o vilão de fato, o Ozimandias, é o esquerdista nato, quer salvar a humanidade, não importa o custo. E no final, mesmo achando que pensou em tudo, é vencido pelo imponderável, no caso, um diário. Ou seja, mesmo que essa não tenha sido a intenção inicial do Moore, serve como uma baita crítica a visão e modus operandi da esquerda.

  • Lucas Andrade

    Mais alguns ótimos filmes conservadores:

    “Blast from the Past” – a decadência pós anos 60, homeschooling (!!) e a fala do pai sobre o fim da guerra fria: “então eles simplesmente se renderam? Os comunistas são geniais.” É um daqueles filmes que melhora cada vez que você assiste.

    “Lições para toda vida” – como histórias e imaginação (será que leram Russel Kirk ?) e exemplos masculinos de caráter são fundamentais para a formação do homem; o garoto acaba preferindo morar com os tios a voltar a morar com a louca mãe solteira;

    “Duas vidas” – um típico homem oco, ressentido com a família de origem, que só liga pro trabalho, é surpreendido pelo (SPOILER) seu próprio “eu” infantil, para mostrar onde ele errou na vida. Uma hora o garoto diz: ” você tem 40 anos, sem cachorro e sem mulher? Eu vou crescer e ser um fracasso.” No fim (com esposa e cachorro) ele até vira piloto de avião, como hobby. Parece que, afinal, “life is worth living.”

    “Batman, The Dark Knight Rises” (o filme, não o gibi) – como a falência do bilionário Wayne prejudica o orfanato, que dependia da sua caridade; revolucionários que usam discurso ambientalista como fachada e o próprio Bane, revolucionário mentiroso que joga o povo contra os “ricos e poderosos” e liberta prisioneiros, “vítimas da sociedade”. Além do icônico Tribunal Revolucionário, digno de Robespierre.

    Aquele do Super-Homem também, dirigido pelo mesmo Christopher Nolan do Batman TDKR, mas não lembro direito da história.

  • Leandro Fiore

    Acabei de ver que Black Kamen Rider/RX são duas séries (uma é continuação da outra) são conservadoras e de direita. Em Black, temos Issamu de um lado, rapaz que empreende uma cruzada pessoal e altruísta, usando os poderes ganhos da sociedade secreta Górgon para defender os inocentes. Os Górgon chegam a criar um partido político com uma agenda tipicamente esquerdista (aparelho que cura as pessoas – mas mata a longo prazo, promover a paz na Terra através da união dos povos, menos capitalismo, etc.) e Issamu rema contra a maré para abrir os olhos das pessoas.

    Em RX, Issamu mais uma vez se vê contra uma agenda de esquerda. O planeta Crisis está se destruindo (e graças a nós mesmos) e resolve trazer seu povo para cá como refugiados. Issamu se levanta e, mesmo sendo nós mesmos os culpados pela desgraça alheia, derrota o Império invasor.

    Em Black, o partido e os ideais dos Górgon me lembram muito o PT e sua agenda. Em RX, claramente há muita similaridade entre a invasão Górgon e os refugiados muçulmanos invadindo a Europa.

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