Como os Marxistas Culturais Falharam ao Ganhar

Sem uma cultura saudável, as pessoas não são marxistas naturais, mas sedentários naturais.

Por Gene Callahan [*]

William Lind descreveu as origens do marxismo cultural da seguinte maneira:

Após a Primeira Guerra Mundial, os marxistas da Europa se depararam com uma difícil questão: por que o proletariado de todo o continente não se levantou em meio a revolução e estabeleceu uma nova ordem marxista, conforme sua ideologia disse que seria? Dois importantes pensadores marxistas, Antonio Gramsci, na Itália, e Georg Lukács, na Hungria, deram uma resposta: a cultura ocidental. A cultura ocidental cegou os trabalhadores de sua verdade, interesses de “classe” sobre os quais eles não poderiam agir. Dessa forma, antes que o socialismo pudesse chegar ao poder, a cultura ocidental tinha de ser destruída. Lukács, em 1919, expôs a questão: “Quem irá nos salvar da civilização ocidental?”

Esse objetivo de “nos salvar” destruindo o vilão, a civilização ocidental, foi efetuado através de um ataque multifacetado. Isso foi apelidado pelo ativista marxista Rudi Dutschke de “a longa marcha através das instituições”. A civilização ocidental seria erradicada gradualmente através do enfraquecimento da família, da comunidade local, da igreja, da escola e, talvez, de forma mais especial, da universidade. O divórcio facilitado, o aborto sob demanda, a interferência pesada na autonomia local, a infiltração nas igrejas com padres e ministros radicais pregando a revolução em vez do cristianismo, a substituição do currículo escolar pró-americano pelo agitprop¹ esquerdista e a degradação de padrões de excelência nas ciências humanas como uma “hegemonia extinta do homem branco” são exemplos do programa em ação.

Por esses meios, o projeto de destruir a civilização ocidental progrediu consideravelmente. Então, por que o proletariado não se livra de suas amarras e se revolta?

Se fizermos uma pergunta diferente, chegaremos à resposta. E esta pergunta é a seguinte: “Por que as grandes empresas se juntaram com tanto entusiasmo aos marxistas culturais em seu programa de destruição civilizacional?”

Antes de mais nada, você conhece o velho aforismo: “Se você está em uma mesa de pôquer e não consegue identificar quem é o pato, é porque você é o pato”? Se você respondeu, “Porque as grandes empresas se importam com estas questões”, bem, você é o pato.  A NBA joga na China, onde as pessoas são escravizadas em sweatshops². Você realmente acha que eles tiraram o Jogo das Estrelas de Charlotte, onde os homens são impedidos de entrar em banheiros femininos, por sua grande preocupação com os direitos humanos?

Muitas de nossas grandes empresas preocupadas com a “justiça social” têm fábricas localizadas na China também. Nossos maiores bancos são grandes amigos da família real saudita, que executa homossexuais. Eu acho que isso é um pouco mais grave do que se recusar a vender um bolo de casamento a um casal de lésbicas, mas o que eu tenho a ver com isso?

Aqueles que estão no topo de nossas gigantes corporações geralmente não se preocupam com essas questões, pelo menos não de forma séria: eles se preocupam em ficar cada vez mais ricos e garantir suas posições contra quaisquer ameaças potenciais.

A resposta certa sobre o porquê das corporações se “unirem” (“cooptarem” é mais adequado) aos marxistas culturais é que, em algum momento, nossos líderes corporativos descobriram que, à medida em que a destruição da cultura progrediu, as pessoas não se tornaram agentes revolucionários de mudança, mas consumidores passivos daquilo que lhes era oferecido e trabalhadores obedientes, confinados em cubículos e se desenvolvendo sob luz artificial. (Não estou afirmando que os CEOs e os quadros corporativos são cientistas sociais sofisticados que, explicitamente, traçaram esta conexão, mas que em algum momento eles notaram: “Nossa! Isto funciona a nosso favor!”). O ponto crucial neste processo de aprendizagem foi provavelmente quando as empresas descobriram que se elas apenas oferecessem dinheiro suficiente às estrelas do rock “contracultura”, essas estrelas do rock venderiam alegremente refrigerantes ou cartões de crédito. E esses anúncios, que ofereciam versões empacotadas de “individualismo” e “rebelião” dos anos sessenta, foram muito eficazes na venda de produtos, permitindo que mensagens de marketing passassem despercebidas pelo bloqueio dos hippies com relação às grandes empresas.

As grandes empresas descobriram que sem uma cultura saudável, as pessoas não são marxistas naturais, mas sedentários naturais. Sem uma família grande, nenhuma igreja eficaz e nenhuma comunidade local saudável para sustentar suas vidas, as pessoas não formam células revolucionárias: elas compram uma caixa de cerveja ou renovam sua prescrição de Xanax e passam seu tempo livre assistindo os jogos da NFL, rede Lifetime e vários tipos de pornografia. Esta vida enfadonha e sedada é marcada por certos “dias de festa”, como a Black Friday, quando se pode entregar muito de seu dinheiro para as corporações; a Véspera de Ano Novo, quando se pode consumir muitas substâncias psicotrópicas vendidas por elas; e o Super Bowl, talvez o dia mais sagrado do consumismo americano, quando a NFL nos diz que nem precisamos de uma verdadeira família, porque o “Futebol³ é a Família”. Ou, como alternativa, podemos assistir ao Walmart cooptando o ícone da contracultura, John Lennon, dizendo-nos para “Irmos juntos [como uma família] agora, para” … o Walmart.

Assim, chegamos a uma requintada ironia: os marxistas culturais que enchem os nossos departamentos acadêmicos de estudos X e Y e servem como Inquisidores-Chefe de Demandas da Diversidade, estão agindo não como a vanguarda do proletariado, mas como os soldados inconscientes da elite corporativa.

Ops!

*Gene Callahan ensina Economia e Ciência da Computação na Faculdade St. Joseph no Brooklyn e é o autor de “Oakeshott on Rome and America“.

[*] Gene Callahan. “How the Cultural Marxists Failed by Winning”. The American Conservative, 17 de Novembro de 2016.

Tradução: Daiana Neumann

Revisão: Felipe Galves Duarte

Notas:

¹ (Abreviação de agitação e propaganda) é uma ideia do marxismo-leninismo que diz respeito à disseminação das ideias e princípios do comunismo entre trabalhadores, camponeses, estudantes, intelectuais e formadores de opinião na sociedade em geral.

² Locais de trabalho com condições insalubres.

³ Trate-se do Futebol Americano. Não confundir com o futebol brasileiro, que se joga com os pés.

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