Como os conservadores perderam o Paraíso

Por Mark Judge [*]

Se eu tivesse a chance de entrar no mesmo elevador que um ricaço conservador, seja Rupert Murdoch ou os irmãos Koch, eu iria pedir, implorar, persuadir e convencê-los de uma coisa: a necessidade de um Instituto Conservador de Cultura Pop muito bem financiado.

Estou pensando em um cargo exercido por um especialista que possa contribuir com um pensamento embasado e longos ensaios sobre a cultura pop americana. Os tópicos iriam além de filmes de grande sucesso sobre super-heróis ou bobagens do MTV Awards; o acadêmico poderia pesquisar sobre jazz, filmes antigos, romances policiais, música experimental, tanto faz. Indo de Greil Marcus a Robert George.

Um Instituto Conservador de Cultura Pop iria combater a hegemonia esquerdista na cultura pop, mas de uma forma não-reativa. Ao reconhecer que a batalha pela cultura é longa e que a cultura pop vai ao encontro de valores e dos anseios mais profundos das pessoas, um enfoque conservador em filmes, romances, quadrinhos e música poderia simplesmente fazer o que o velho [enfoque] conservador não foi capaz: mudar corações e mentes.

Recentemente, o saxofonista de jazz Mark Turner lançou, The Lathe of Heaven, um álbum que leva o título de um romance de mesmo nome da escritora de ficção científica Ursula K. Le Guin. O livro descreve a vida de um homem, George Orr, cujos sonhos tornam-se realidade. Ele é incentivado por seu psiquiatra, Dr. Haber, a fazer um mundo melhor. No entanto os sonhos utópicos de Haber acabam piorando as coisas. Le Guin considera The Lathe of Heaven, “um romance taoísta” em vez de uma utopia ou distopia. Mas muitos críticos entendem o livro como um alerta Hayekiano sobre a engenharia social esquerdista. Ela conta que não importa o quanto as melhorias sejam evocadas nos sonhos de George Orr, estas nunca serão o suficiente para o Dr. Haber. Nada pode fazê-lo feliz.

Esta é uma confluência intrigante de projetos artísticos um músico de jazz aclamado produz um álbum baseado em um famoso romance de ficção científica de conotação anti-utópica. No entanto, porque os conservadores, ao contrário dos esquerdistas, não têm uma infraestrutura sólida de divulgação para tal trabalho nem mesmo uma mente cultural brilhante para dar cabo disso The Lathe of Heaven, provavelmente, irá passar despercebido pela mídia conservadora. E os mesmos conservadores que o ignoraram serão os mesmos que na próxima semana estarão se lamentando pelo fato da esquerda “dominar a cultura.”

Se a esquerda domina a cultura pop é porque trabalharam duro por isso, utilizando os valores conservadores da perseverança e criatividade. Há um abismo que separa a infraestrutura que a esquerda construiu ao longo dos últimos 50 anos para celebrar e interpretar a cultura pop e do pequeno espaço que o establishment conservador dedicou à cultura popular. É por essa razão, mais do que qualquer alegação de que a cultura pop americana esteja irremediavelmente decadente e de esquerda, que a direita parece perdida no mundo dos filmes, música e best-sellers. Todos os meses, se não todas as semanas, obras importantes da cultura pop passam despercebidas pela direita.

Muitas vezes essas são coisas que tocam a alma das pessoas filmes que lidam com questões de honra, romances, como o de Le Guin sobre o significado do sexo e da política, músicas que exploram os limites do auto sacrifício no amor.

E a direita não tem nada a contribuir para a conversa.

Em 1967, um estudante universitário chamado Jann Wenner pegou um empréstimo de US$ 7.500 e fundou a revista Rolling Stone, porque ele queria analisar os aspectos mais importantes da música e da cultura que estavam fornecendo poesia para sua geração. Na mesma época um estudante chamado Martin Scorsese se formava na escola de cinema da Universidade de Nova York, e uma jovem aspirante a romancista chamada Ursula Le Guin teve seus primeiros cinco romances rejeitados. Em outras palavras, esses artistas, e muitos outros, construíram os alicerces do que viria a ser o establishment esquerdista. Eles estão nesse jogo há muito tempo. É por isso que se o músico Mark Turner fosse inspirado pelo livro The Left Hand of Darkness, de Le Guin, no qual se imagina uma corrida que pode mudar o seu sexo, haveria uma entrevista no New York Times, disponível na internet, haveria uma menção na Rolling Stone e na Vanity Fair, talvez até uma entrevista no [David] Letterman. A estrutura está montada de modo que quando um artista reforça os valores esquerdistas vigentes, este ganha uma notoriedade imediata diante do público.

Quando o esquerdismo ascendeu na cultura pop nas décadas de 1960 e 1970, os conservadores simplesmente reagiram a isso. Até certo ponto era compreensível: a revolução cultural da esquerda chegou até nós, eles foram (e são) os agressores, e era necessário dar uma resposta. E ainda é. A direita precisa de gente como Michelle Malkin e Ann Coulter nas linhas de frente. Mas também precisa de [algo equivalente a] Martin Scorsese e Alec Baldwin. A direita precisa de artistas, visionários, escritores e excêntricos. Um monte de lixo surgiu na revolução cultural das décadas de 1960 e 1970, mas também surgiu muita coisa boa. O Saturday Night Live mudou mais pessoas do que a National Review.

Imagine se a Heritage Foundation provavelmente, o think tank conservador mais notório possuísse um Departamento de Cultura Pop, coordenado por um especialista dedicado e aficionado por cinema, televisão e música. E mais, imagine se após a sua fundação em 1974 no tempo em que Scorsese fazia seu filme de estréia Taxi Driver a Heritage tivesse criado um pequeno escritório para o estudo da cultura pop. Basta pensar o que poderia ter surgido se tivessem investido alguns dólares em um jovem escritor ou cineasta conservador ou liberal. Ou lançado uma nova revista que poderia servir de contraponto à Rolling Stone. Não estaríamos nos debatendo tanto hoje com nossos esforços parasitários que alimentam-se da criatividade esquerdista.

Caso os conservadores tivessem o presságio de encarregar-se disso, não estariam correndo atrás do prejuízo relativo a cultura atualmente. The Lathe of Heaven não seria algum álbum de jazz desconhecido de um músico do qual nada se sabe, ou um artefato de um mundo bizarro de ficção científica. Seria algo do qual poderíamos conversar com alguma propriedade e, possivelmente, até mesmo apreciar uma visão artística igualmente atraente. Nós não estaríamos relegados a lata de lixo da história da cultura pop.

[*] Mark Judge. “How Conservatives Lost Heaven”. Real Clear Religion, 21 de Outubro de 2014

Tradução: Rodrigo Carmo

Revisão: Hélio Duarte

2 comentários

  • Antonio Marcos Rodrigues

    É gratificante ler este artigo pois precisamos disto urgente!Adoro literatura e cinema e aqui onde moro na cidade de São Paulo quando vou nas oficinas de cinema e de escrita criativa os professores e alunos são todos de esquerda,me sinto um peixe fora d’agua!Nas bibliotecas a literatura é totalmente de ideal esquerdista.Nestes lugares,oficinas de escrita criativa,escolas de cinema,ha uma demonização da direita;Ser pop,ser cult,ser inteligente,tem que ser de esquerda.Estes dias em uma palestra de um professor de literatura que discursava sobre a obra de Fiódor Dostoiévski,citando de forma distorcida e dissimulada a obra do autor o professor o professor distorcendo os fatos,citando frases de livros fora do contexto,usurpou a obra de Dostoiévski fazendo com que o autor parecesse socialista,o que é uma mentira.Realmente a esquerda tem usado a cultura para dominar corações e mentes e infelizmente tem feito isto com muito exito!

  • Pingback: Conservadores devem confrontar a hegemonia esquerdista na arte – Farol.News

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *