Como o politicamente correto atual desenvolveu-se do pós-modernismo universitário

Por Crispin Sartwell [*]

Nós estamos testemunhando a segunda grande era de repressão a liberdade de expressão na academia, a primeira veio durante a “guerra cultural” do fim da década de 80 e início da de 90. Uma força por trás da nova onda é a teoria da verdade, ou retrato da realidade, desenvolvida recentemente. Essa teoria, que poderíamos chamar de “construtivismo linguístico”, sustenta que não apenas descrevemos ou representamos o mundo na linguagem; a linguagem cria o mundo e nós mesmos. Um slogan do momento “as palavras têm poder” reflete essa visão.

Naquela época, figuras intelectuais “pós-modernas”, como o meu professor Richard Rorty, foram acusadas de relativismo. Em 1998, em seu livro Para Realizar a America: o Pensamento de Esquerda no Seculo XX na America, Rorty escreveu que “a objetividade é uma questão de consenso intersubjetivo entre os seres humanos, não de representação acurada de algo não-humano”. Ele tinha muitas maneiras de desviar a carga de relativismo. Mas talvez seja mais notável ainda que sua “realidade de consenso” fosse alcançada através do contar histórias. Ele sustentava que a realidade era uma questão de narrativas amplamente aceitas em particular as narrativas do progresso social.

A ideia de que nos construímos nós mesmos, uns aos outros e o mundo pela linguagem era notavelmente difundida no período áureo do pós-modernismo. Figuras como Alasdair MacIntyre, Paul Ricoeur e Nelson Goodman que discordaram sobre muitas coisas convergiram nisso. “Se eu perguntar sobre o mundo”, escreveu Goodman, um filósofo de Harvard, “você pode oferecer-se para me dizer como é sob uma ou mais perspectivas; mas se eu insisto que você me descreva à parte de todas as perspectivas, o que você pode dizer? Estamos confinados à maneiras de descrever tudo o que é descrito. Nosso universo, por assim dizer, consiste desses caminhos e não de um mundo “.

A ideia é oriunda do campo teórico, mas provou ter uma habilidade notável para difundir-se pela a cultura geral. Antes do final dos anos 90, a Nike usava o slogan: “nós somos as histórias que contamos”. Na política e na publicidade, as “estratégicas de comunicação” se voltaram para questões sobre como refazer a consciência das pessoas por exemplo, dando uma nova perspectiva, como sugerido por Goodman. Os terapeutas ajudavam seus pacientes a tornar suas histórias mais positivas.

As palavras possuírem tal poder sugere que nós podemos criar um mundo melhor narrando-o de outra maneira. Mas isso também implica que precisamos ter controle sobre o que as pessoas dizem e escrevem, ouvem e lêem. Se as palavras fazem a realidade, então elas são cruciais para a opressão racial, por exemplo. Mudar as palavras que usamos sobre raça poderia mudar a consciência sobre o assunto e reduzir o racismo. Muitas feministas e teóricos racialistas assumiram esse tipo de construtivismo linguístico e muitas vezes parece aos jovens, inclusive aos meus alunos, um verdadeiro senso comum.

Essa é uma evolução notável, pois este tipo de pós-modernismo foi visto como radical e bizarro quando surgiu. Aqui está uma razão para questioná-lo: após o movimento de direitos civis dos anos 60, os americanos brancos, em geral, aprenderam a não usar linguagem racista. Ficamos convencidos de que o racismo era, em grande medida, uma questão de usar termos errados. Nós retiramos esses termos da linguagem do dia a dia e mesmo de nossas mentes. Então, mais ou menos chegamos a acreditar que não éramos mais racistas.

Mas, em muitos aspectos, a estrutura da opressão racial persistiu ou mesmo se intensificou, como no encarceramento em massa. A correção da linguagem, por meio de sanções sociais formais e informais, resultou ser muito mais fácil do que lidar com as condições materiais de segregação ou pobreza. Uma posição como a de Rorty, entretanto, não permite nenhum critério de verdade fora da linguagem, nenhum apelo às “condições materiais” além de nossas descrições.

Para Rorty, a verdade não é nada além de uma história que todos vamos aceitar juntos uma história progressiva na qual as desigualdades de raça, sexo e sexualidade estão sendo constantemente reduzidas. As posições articuladas pelos oponentes dessa narrativa são falsas por definição, falsas desde a concepção, sabidamente falsas antes mesmo de serem examinadas. É central aos valores da academia dedicada à verdade silenciar essas opiniões.

É questionável que os atuais críticos das universidades chamados de ‘intelectuais conservadores’ mereçam essa descrição,” escreve Rorty. “Para intelectuais é preciso estar ciente e pronunciar-se sobre questões de justiça social.” Ou seja, os opositores do consenso esquerdista na academia nem sequer contam como intelectuais por causa das posições que tomam. Por essa lógica, é defensável eliminar essas pessoas dos programas de pós-graduação, negar-lhes cargos, até mesmo silenciá-los.

Muitas vertentes confluem no ambiente de censura acadêmica vigente; essa vem da arena das ideias e não diretamente de forças sociais maiores. Mas tem sido uma ideologia particularmente potente no estabelecimento da academia como uma zona de unanimidade ideológica.

[*] Crispin Sartwell. “How today’s political correctness grew from uni postmodernism”. The Australian, 28 de Março de 2017.

Tradução: Guilherme Pradi Adam

Revisão: Rodrigo Carmo

1 comentário

  • Policarpo

    O politicamente correto, uma versão do velho realismo socialista – com uma pitada de maoísmo: “Not to have a correct political orientation is like not having a soul” – é uma das ferramentas do marxismo cultural para a “construção” da nova sociedade.

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