Como ler um blog, segundo um manipulador de mídias

Você já se deparou com um artigo ou notícia na sua linha do tempo no Facebook o qual você descobriu mais tarde ser mentira? Já desconfiou que alguns jornalistas e blogueiros podem não estar sendo 100% honestos ao publicar uma determinada informação? Infelizmente, você não está ficando maluco. E, para piorar, isto é só a ponta do iceberg.

manipA notável e extremamente rápida evolução dos meios de comunicação não ocorreu sem deixar graves falhas em sua estrutura. Nós frequentemente somos alheios a estas fragilidades. Na melhor das hipóteses, temos algumas desconfianças baseadas na experiência. Porém, algumas pessoas conhecem estas fragilidades nos seus mínimos detalhes e as tem explorado para obter ganhos pessoais. Uma dessas pessoas se chama Ryan Holiday.

Trabalhando na área publicitária, Ryan explorou por anos estas fragilidades com um simples objetivo: obter publicidade positiva para a sua empresa sem desembolsar um centavo. Através de truques diversos, Ryan habilidosamente manipulava jornalistas e blogueiros, que acreditavam ter em mãos um furo de reportagem mas, na verdade, estavam caindo na armadilha publicitária. Porém, um dia, o caçador tornou-se a caça. Algumas experiências negativas fizeram Ryan perceber que outras pessoas também conheciam o sistema muito bem, mas eram muito mais ambiciosas e menos escrupulosas. Estas pessoas não pensavam duas vezes em destruir a vida de uma pessoa em troca de alguns cliques em seu blog.

Em meio a este novo panorama, Ryan decidiu que precisava alertar a população de como o sistema está sendo utilizado para manipular desde fatos simples envolvendo celebridades até campanhas presidenciais. Em seu livro “Trust me: I´m lying – Confessions of a media manipulator”, Ryan Holiday apresenta diversas técnicas de manipulação, relata suas experiências como manipulador e alvo de campanhas difamatórias e faz um alerta preocupante. Apresentamos aqui a tradução de parte de um capítulo deste livro, entitulado “Como ler um blog”, buscando equipar os leitores com algumas noções básicas, além de incentivá-los a ler o livro, que foi publicado no Brasil com o título: “Acredite, Estou Mentindo – Confissões de Um Manipulador Das Mídias”. Como possuímos apenas a versão original, em inglês, optamos pela tradução para ajudar a difundir este livro importantíssimo.

Capítulo 24: Como ler um blog61bf1SiqdzL._SX324_BO1,204,203,200_

Quando você vir um blog que inicia uma reportagem dizendo “de acordo com um informante…”, saiba que o informante era alguém como eu, manipulando o blogueiro para escrever o que eu queria.

Quando você ler “Temos recebido relatos”, saiba que “relatos” pode significar qualquer coisa, desde menções aleatórias no Twitter até posts em fóruns, ou pior.

Quando você vir escrito “documentos vazados” ou “documentos oficiais”, saiba que o vazamento, na realidade, significa que alguém enviou o documento para o blogueiro por e-mail e que, na maioria das vezes, eles não são oficiais e são frequentemente falsos ou fabricados, com o objetivo de tornar pública uma informação que seja conveniente.

Quando você ler “Urgente” ou “Teremos mais detalhes com o desenvolvimento da história”, saiba que o que você está lendo chegou muito cedo a você. Não houve nenhum “esperar pra ver”, nenhuma tentativa de confirmação e nenhum debate interno sobre a importância da história precisar que se abandonasse a cautela. O protocolo é não perder tempo, publicando antes dos fatos básicos serem checados e não se importar se o artigo pode prejudicar uma pessoa.

Quando você vir “Atualizado” na história ou no artigo, saiba que ninguém se deu a trabalho de refazer a história à luz dos novos fatos – eles apenas copiaram e colaram alguma porcaria no final do artigo.

Quando você vir “Fontes nos informaram…”, saiba que estas fontes não são criticadas, são raramente verificadas e estão desesperadas por atenção.

Quando você vir uma história marcada com “Exclusivo”, saiba que isto significa que o blog e a fonte fizeram um acordo que inclui preferência na cobertura. Em muitos casos, a fonte enviou este material exclusivo para diversos sites ao mesmo tempo e que o autor está apenas se apropriando de uma história que ele roubou de um site menos conhecido.

Quando você vir “de acordo com um comunicado à imprensa”, saiba que provavelmente não foi um comunicado que a empresa pagou para disponibilizar oficialmente. Eles apenas o enviaram por e-mail para vários blogueiros e jornalistas.

Quando você vir “De acordo com um relato…”, saiba que o escritor está resumindo um artigo de outro portal de notícias e não possui as habilidades básicas de compreensão de texto. Além disso, ele tem pouco tempo para isso e todos os incentivos para simplificar e exagerar.

Quando você vir “Procuramos o fulano para comentar o caso”, saiba que eles enviaram um e-mail dois minutos antes de clicar em “Publicar”, às quatro da manhã, bem depois de terem escrito a história e terem tirado as suas conclusões, sem fazer absolutamente nenhum esforço para descobrir a verdade antes de entregar o material para você como uma notícia.

Quando você vir uma frase atribuída a uma pessoa, saiba que o blogueiro não falou com esta pessoa, mas provavelmente roubou a frase de algum lugar e, pelas regras da economia de links, eles acreditam poder apresentar estas citações como se tivessem sido obtidas por eles mesmos, enquanto o link para o material original está escondido em algum lugar do post.

Quando você vir “o que significa”, “implicando que”, “que irá resultar em” ou qualquer outro tipo de interpretação ou análise, saiba que o blogueiro provavelmente não possui nenhum treinamento ou conhecimento no campo em que eles estão opinando, não se motivaram a aprender e nem se importaram em cometer erros grosseiros, pois não haverá consequências.

Quando você ouvir um amigo dizer “Eu estava lendo que…”, saiba que, hoje, a triste realidade é que eles provavelmente leram algo em um blog.

cpac

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