Como fazer bom uso da cultura pop?

Por Jean Derome [*]

Yoshinori Kobayashi usou seu enorme talento para promover uma visão patriótica da História japonesa.

Durante suas muitas tentativas de mudar a atitude das pessoas em relação à História recente do Japão e à Constituição do Pós-Guerra, Nippon Kaigi ganhou um apoio cada vez mais forte de vários grupos e indivíduos conservadores e de direita. Uma das personalidades mais ativas que surgiram desde o final dos anos 90 foi Yoshinori Kobayashi, ensaísta e artista de quadrinhos dos mais vendidos. Autor de mais de duzentos livros e mangás, Kobayashi começou como artista cômico em meados da década de 1970, satirizando o sistema educacional japonês (como por exemplo o “Inferno dos Exames”). Nos anos 80 apontou suas armas para o privilégio social durante os anos de bonança da bolha econômica e ganhou o Prêmio Shogakukan Manga de 1989 para manga infantil, com Obocchama-kun.

O nome de Kobayashi tornou-se conhecido fora do círculo de fãs de mangá nos anos 90, quando passou a publicar uma série de ensaios em mangá chamada Gomanism Sengen (Declaração de uma Filosofia da Arrogância), em que criticou e satirizou diversos aspectos da sociedade japonesa (as piadas de Kobayashi “desagradaram” tanto o culto apocalíptico Aum Shinrikyo que este, numa ação que se tornou famosa, tentou matá-lo em 1993). Mais importante ainda, Kobayashi, com sua propensão para controvérsia e discussão, pediu, em sua maneira arrogante e abrasiva usual, uma revisão conservadora da História japonesa do século XX.

O ensaio que mais chamou atenção – Sensoron (Sobre a Guerra, 1998) — foi apenas uma das várias obras que anunciaram esta crescente atitude nacionalista em relação ao passado do Japão. Outros ensaios revisionistas da época incluem Chugoku Nyumon (Introdução à China) de Joji Akiyama e Ken-kanryu (Ódio à “Onda Coreana”) de Sharin Yamano, mas Sensoron foi de longe o mais bem-sucedido de todos, vendendo cerca de 650.000 cópias. Como afirmou mais tarde, Kobayashi concebeu Sensoron como “algo que os intelectuais não podem escrever — algo que os jovens têm prazer em ler e pelo qual se tornam completamente atraídos, e ainda assim não é algo leve, mas profundo”.

A abordagem populista e não-intelectual de Kobayashi é exemplificada pela técnica de mangá usada de forma consistente ao longo da série Gomanism Sengen: cada livro apresenta um sósia de Kobayashi — um símbolo do homem comum – que usa de lógica e bom senso para refutar várias questões relacionadas à Segunda Guerra Mundial e apontar os pontos fracos da versão aceita da História (isto é, a dos historiadores e intelectuais progressistas). Entre os temas abordados estão às chamadas “mulheres de conforto” (mulheres forçadas à escravidão sexual pelo Exército Imperial Japonês), o Massacre de Nanquim e a guerra de agressão do Japão na Ásia.

No caso das mulheres de conforto, por exemplo, Kobayashi argumenta que “não houve mulheres sequestradas pelos militares japoneses e transformadas em escravas sexuais. O que houve eram mulheres que vendiam seus serviços a soldados japoneses por vontade própria ou por circunstâncias inevitáveis”. Assim, ele acusa as mulheres de conforto sobreviventes de serem mentirosas que tentam extorquir o governo japonês (uma de suas declarações recentes sobre o assunto pode ser encontrada no You Tube, youtube.com/watch?v=Hpa- Nofy5bwQ & t = 25s). A ideia geral deste e de outros livros de Kobayashi e de outros escritores de direita é que o Japão foi à guerra de forma justa, a fim de libertar os demais países asiáticos do colonialismo.

O problema com Sensoron é que Kobayashi só escolhe as provas e fontes históricas que sirvam de apoio às suas opiniões, e ignora quaisquer outras que contradigam seu ponto de vista. Grande parte das informações, mesmo quando corretas, é usada fora de proporção e de contexto, levando a conclusões que nunca resistiriam a um exame histórico sério. Mesmo assim Kobayashi ganhou muitos admiradores com sua inteligente mistura de cultura pop (mangá), anti-elitismo e análises pseudocientíficas, o que fez dele um colunista e comentarista de TV muito requisitado.

Durante o mesmo período em que seus livros o tornaram um comentarista influente —embora controverso —, Kobayashi se juntou à Sociedade Japonesa para a Reforma dos Livros de História (Tsukurukai), um grupo de professores universitários conservadores e outros estudiosos que na virada do século ganharam amplo apoio da Nippon Kaigi. Primeiro a associação tentou pressionar o Ministério da Educação a excluir quaisquer referências a mulheres de conforto nos livros escolares e, depois de essa campanha ter pouco êxito, decidiu desafiar a visão dominante da História publicando ela própria um livro alternativo de ensino médio. Em 2001 o Ministério da Educação autorizou o uso de seu livro didático e muitos políticos pertencentes ao conservador Partido Liberal Democrático (PLD) pressionaram os conselhos de educação locais a adotar esse livro, mas, por fim, apenas algumas escolas privadas o fizeram. Essa derrota levou Kobayashi a deixar o grupo. Mais tarde afirmou que, embora compartilhasse das ideias da Tsukurukai sobre o modo como a História deveria ser ensinada nas escolas, o próprio livro produzido pelo grupo simplesmente maquiou a história em nome da ideologia. Em vez disso decidiu concentrar-se num novo projeto: uma revista trimestral chamada Washism (Eu-ismo), em que continuou a exibir sua visão iconoclasta sobre questões políticas e sociais. Pela mesma época lançou também Shin Sensoron (Novo Tratado Sobre a Guerra), no qual suavizou sua posição ao enfatizar os horrores, e não a glória, da guerra.

Em 2010, Kobayashi demonstrou sua relação complexa com o establishment conservador japonês quando conversou com Shinzo Abe (então líder do PLD na oposição) em uma série de entrevistas intitulada Kibo no Kuni Nippon (Japão, um País de Esperança). Nestas entrevistas, ambos concordam que os fortes valores morais do Japão do pré-guerra foram destruídos pela ocupação americana, e que o uso de mulheres de conforto (uma verdadeira obsessão da direita política) foi, no fim das contas, praticado por todos os participantes na Segunda Guerra Mundial, e que o Japão foi criminalizado por isso apenas em razão de ter sido derrotado. Kobayashi, no entanto, critica Abe por ceder à pressão americana acerca de questões históricas.

Nos últimos anos, especialmente depois do início do segundo mandato de Abe como primeiro-ministro, o mangaka vem criticando cada vez mais o governo japonês e mostrando uma atitude mais ambivalente (alguns diriam ambígua) em relação ao conservadorismo. Em 2013 em particular, Kobayashi disse opor-se ao novo projeto de lei de sigilo numa coluna de primeira página do jornal Asahi (uma escolha surpreendente, já que este jornal de esquerda é tradicionalmente um dos alvos favoritos dos conservadores). Kobayashi comparou o projeto de lei de sigilo com a Lei de Preservação da Paz de 1925 e ressaltou o fato de que a nova lei poderia ser usada para censurar qualquer tipo de oposição e transformar o Japão em um Estado autoritário.

A nova posição ideológica de Kobayashi foi confirmada numa entrevista coletiva realizada em agosto de 2015 no Clube de Correspondentes Estrangeiros no Japão, em Tóquio. Nesse evento Kobayashi começou dizendo que as pessoas o consideram um conservador; e de fato ele o é, na medida em que acredita em conservar a identidade do Japão, mas que mudou algumas opiniões após o debate sobre a legislação de segurança. “Por exemplo”, disse ele, “creio firmemente que a Constituição japonesa deve ser revisada e permitir que as chamadas Forças de Autodefesa se tornem uma força militar”, e acrescentou: “no entanto, discordo de todos os conservadores que querem preservar um relacionamento de subordinação entre meu país e os Estados Unidos”. Ele deu como exemplo a Guerra do Iraque (um evento que ele já abordara em seus livros). “Hoje, todos concordam que foi uma guerra de agressão e que foi errado invadir o Iraque”, argumenta ele, “mas o primeiro-ministro Abe e todo o establishment conservador no Japão continuam a negar isso. Eles não querem admitir que foi um erro acompanhar a América na guerra, e a razão disso é que o Japão sempre deve seguir a política externa americana”.

“Os japoneses devem ser capazes de discernir entre uma guerra justa e uma guerra errada e decidir se querem se comprometer com essa guerra. Nos últimos 50 anos a América embarcou em muitas guerras de agressão, incluindo o Vietnã, Afeganistão e Iraque. Em todas elas acabou destruindo esses países. No meu modo de ver, no passado até o Japão se envolveu em guerras de agressão, mas a partir de agora devemos evitá-las”.

Sobre a Constituição, Kobayashi disse não estar entre aqueles que pensam que o Artigo 9 deva ser preservado a todo custo. “Não concordo com o movimento pacifista porque para mim o artigo 9 é uma outra faceta da presença militar americana no Japão”, explica. “Mas acredito que devemos defender o constitucionalismo a todo custo. É a única maneira que as pessoas têm de colocar o governo em xeque-mate”. De maneira bastante incomum para ele, Kobayashi elogiou a Constituição imposta pelos Estados Unidos, explicando que a coisa boa sobre ela é que o controle civil sobre os militares está claramente definido.

No fim da entrevista perguntaram a ele se considerava a Grande Guerra da Ásia Oriental (ou seja, a Guerra do Pacífico) uma guerra de agressão. Ele respondeu que a invasão à China em 1937 foi obviamente uma guerra de agressão, mas para entender o que aconteceu deve-se atentar para todo o contexto. “Em 1853 o Comodoro Perry chegou ao Japão e forçou nosso governo a aceitar tratados desiguais com os EUA e outros países ocidentais”, disse ele. “O Japão subitamente entrou na era do imperialismo e foi forçado a se tornar ele mesmo uma potência colonialista para sobreviver e ser tratado como igual. Ganhamos a Guerra Sino-Japonesa e a Guerra Russo-Japonesa. Consequentemente, os cidadãos começaram a respeitar os líderes militares e deixaram de ficar atentos à política externa desses líderes. Sendo assim, penso que o Japão acabou numa situação em que não tinha outra escolha a não ser lutar contra os EUA. Afinal, o Japão teria preferido permanecer isolado do resto do mundo. Foi forçado a se abrir, e isso pôs em marcha um processo que culminou na guerra contra os EUA. Pode-se dizer que foi o nosso destino”.

No final, Kobayashi parecia ser um homem em uma encruzilhada, tentando recuperar parte do carisma perdido e reposicionando-se ao longo de linhas um pouco mais a esquerda, mas sem renunciar ao seu característico patriotismo de direita.

[*] Jean Derome. “Making good use of pop culture”. Zoom Japan, 15 de Fevereiro de 2017.

Tradução: Felipe Alves

Revisão: Rodrigo Carmo

1 comentário

  • Lucas Ozawa

    Excelente artigo! Muito oportuno analisar a cultura japonesa em termos de conservadorismo e nacionalismo, em um momento de tamanha tensão militar na península coreana e Japão. Foi interessante conhecer a opinião de um artista conservador sobre questões históricas e de guerra, vistas no Ocidente sempre sob a “ótica do vencedor” e do movimento revolucionário. Infelizmente no pós-guerra, o Japão tornou-se um país pacifista, absorveu totalmente a cultura ocidental e está perdendo cada vez mais sua identidade. A cultura pop domina a juventude com seus mangás, animes, live actions, hentais recheados de hedonismo, violência, pornografia, incesto etc tudo para alienar e enfraquecer seus corações e mentes. A sociedade japonesa se sobreviver a uma eventual guerra com a Coréia do Norte, pode ser que não sobreviva a um colapso civilizacional.

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