CHRISTOPHER NELSON: ESTARIA A LEITURA COM O FUTURO AMEAÇADO?

Por Christopher Nelson [*]

Alguns educadores estão começando a se preocupar com [a possibilidade] de a geração conectada estar caminhando em direção à completa desistência de uma leitura séria. Levando-se em consideração nossa experiência aqui em St. John’s, o futuro da leitura não está em risco. Nossos estudantes comprovam, todos os dias, que é perfeitamente possível estar totalmente plugado e, ao mesmo tempo, sentir-se absorvido pelos maiores livros já escritos. E isso é uma coisa boa, porque a arte de ler é fundamental para nossa liberdade e felicidade.002079

Em “Narrative of the Life of Frederick Douglass” (A Narrativa da Vida de Frederick Douglass), Douglass explica como compreendeu o segredo do poder que os escravocratas tinham sobre os escravos. Aos sete ou oito anos, ele foi enviado por seu senhor, [que vivia] em uma área rural de Maryland, para tornar-se escravo na casa da família de um parente. Pouco depois de chegar, a dona da casa começou a ensinar-lhe o alfabeto, e, em seguida, a grafia de palavra de três ou quatro letras. A essa altura, seu esposo descobriu o que ela estava fazendo. Ele a proibiu de continuar [com o ensino]. Aquilo era ilegal e arriscado, disse ele, e, além do mais, somente iria prejudicar o menino. Certamente, o aprendizado iria arruiná-lo.

Isso iria desqualificá-lo para sempre como escravo. Ele iria, ao mesmo tempo, tornar-se ingovernável e sem valor para o seu senhor. Semelhantemente, para o próprio menino não poderia fazer bem nenhum, mas um grande mal. Isso o deixaria desgostoso e infeliz.

Essa decisão explosiva foi uma revelação para Douglass.

Essas palavras penetraram profundamente em meu coração, suscitaram sentimentos interiores que estavam adormecidos, e trouxeram à existência uma sucessão de pensamentos inteiramente nova. Foi uma nova e especial revelação, que dava sentido a coisas sombrias e misteriosas, contra a qual minha juvenil compreensão tinha lutado, mas lutado em vão. Eu agora entendia o que tinha sido para mim uma dificuldade desconcertante – a saber, o poder do homem branco de escravizar o homem negro. Essa era uma grande conquista, e eu a apreciava muito. Daquele momento em diante, entendi o caminho da escravidão para a liberdade. Era justamente o que eu queria, e consegui na hora em que menos esperava.

A capacidade de ler era o segredo da escravidão. A mente dos escravos tem de ser mantida na escuridão. Eles não devem conhecer os pensamentos dos outros, não devem entender os argumentos pelos quais seus senhores estabelecem e fortalecem o poder sobre si, nunca devem ser capazes de cogitar a ideia de que a escravidão possa ser injusta. Eles não devem ser aptos a tomar parte no movimento da liberdade de pensamento difundido que passa de pessoa para pessoa. Sabem-se lá quais ideias insubordinadas poderiam ser postas em sua mente por algum filósofo remoto ou político agitador?

Douglass, engenhosamente, aprendeu a ler sozinho. Por meio da leitura, ele descobriu que não há justificativa para a escravidão, preparou a sua fuga para o Sul, e começou a lutar pela abolição.

12-48A história de Douglass é apenas um exemplo do poder que a leitura tem de iluminar tanto a cabeça quanto o coração. Recente pesquisa mostrou que a habilidade de identificar e entender o estado subjetivo de outras pessoas é intensificado pela leitura de ficção literária. (veja David Comer Kidd e Emanuele Castano, 2013, artigo “Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind” na [revista] Science). Por meio de uma série engenhosa de testes, os autores foram capazes de mostrar que a leitura de ficção leva ao desenvolvimento da habilidade de compreender os outros, e não que aqueles que fossem bons em compreender os outros prefeririam leituras de ficção.

Há afirmações ainda mais surpreendentes sobre o poder esclarecedor da leitura. Stephen Pinker, em seu livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”, e Michael Shermer, em seu livro “The Moral Arc” (O Arco Moral), mostram como a violência tem sido significativamente reduzida entre os seres humanos, especialmente nos séculos que sucederam o Iluminismo, quando teve início a possibilidade de alfabetização generalizada. Leituras sérias de todos os tipos de matérias difíceis parecem estar correlacionadas com a facilidade de raciocínio abstrato, o qual está, por sua vez, correlacionado com a propensão a [comportar-se com] menos violência. Além disso, concluiríamos que aqueles que perdem menos tempo brigando têm mais tempo para se dedicar à leitura. Esse parece ser um resultado positivo extremamente favorável.

Dessa forma, é ótimo que a geração conectada pareça estar conservando seu amor pela leitura, mantendo as vantagens que são obtidas ao se compreender bem a mente das pessoas, e dando continuidade ao círculo virtuoso que tem sido, durante séculos, uma espiral em direção a uma maior tranquilidade.

[*] Christopher Nelson. “Is the Future of Reading at Risk?The Imaginative Conservative, 20 de Abril de 2016.

Tradução: Walkiria Melo

Revisão: Gleice Queiroz

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