Blue Bloods: um seriado policial alicerçado nas virtudes clássicas

Por Michael Auslin [*]

Para aqueles que cresceram na década de 1970, a televisão de hoje é tão diferente da televisão de nossa juventude como Além da Imaginação deve ter sido para aqueles que cresceram com o teatro vaudeville. Tendo-me viciado em televisão durante sua era de “vasto deserto” (nas famosas palavras do presidente da Comissão Federal de Comunicações Newton Minow em 1961), muitas vezes agora me vejo perdido entre intrincados arcos de história que podem durar uma temporada inteira, plots paralelos e ritmos narrativos muito diferentes dos tradicionais episódios de 43 minutos.

Muitos críticos e comentaristas chamam a televisão de hoje de a “segunda era de ouro”. Séries como Mad Men, Breaking Bad e Homeland são aclamadas como dramas que revolucionaram o gênero. A capacidade de desenvolver personagens sem pressa, ao longo de várias temporadas, e traçar com detalhes a evolução deles torna essas séries mais alinhadas com a literatura séria do que com o entretenimento popular. É claro, muitos na indústria comemoram a permissão para explorar temas até agora ignorados, como homossexualidade, casamento entre pessoas do mesmo sexo, aborto, imigração, uso de drogas e coisas do gênero. Não surpreendentemente, a maioria dos shows elogiados estão na TV a cabo, mas mesmo as redes de televisão aberta evoluíram com os tempos.

Os programas policiais não ficaram fora dessa tendência. Em décadas passadas, baseavam-se fortemente na narrativa do tipo Mocinho-e-Bandido, mas alguns dramas policiais de hoje são irreconhecíveis segundo esse modelo. Na década de 1980 eu assistia avidamente a Hill Street Blues, que era considerado inovador; contudo, se fosse hoje não chegaria aos pés de uma série como The Wired, com seus arcos intensos e caracterizações brutais.

Agora em sua sexta temporada, Blue Bloods da CBS parece à primeira vista ter pouco a ver com o recente renascimento da televisão. Comparado com Sons of Anarchy ou Boardwalk Empire, parece ser um retrocesso aos anos 50. Seus plots se desenrolam geralmente num único episódio, com apenas uma ou duas linhas narrativas estendendo-se por mais que isso. Dentro do gênero, é mais parecido com Dragnet do que com The Wire, mais com Adam-12 do que com True Detective.

Em espírito, porém, Blue Bloods é na realidade um western urbano, ao reviver um gênero que definiu o drama televisivo desde sua infância até o início dos anos 1970. Blue Bloods, a história dos Reagans, uma família católica irlandesa de policiais de Nova York, é como se fosse Ponderosa[1] encenada às margens do Rio Hudson. No entanto, não é uma série ortodoxa de procedimento policial, como o venerável império de Law & Order. Pelo contrário, é um conto de moralidade. Evita a ambigüidade moral que impregna os programas atuais da TV a cabo, concentrando-se em vez disso num catecismo do bem e do mal.

O núcleo de Blue Bloods é a família – ambos os Reagans, que são os personagens centrais, e o Departamento de Polícia de Nova York. No mundo de Blue Bloods a família não é apenas uma unidade importante, mas a mais importante da sociedade. Esta é uma idéia muito tradicional, se não anti-moderna. Na série, a identidade de um indivíduo é inseparável de seus laços de família, seja ela a de sangue ou a do distintivo. Os personagens são julgado pelo seu modo de agir para com a família, e os talentos pessoais são empregados em grande parte para benefício da família ou para promover seus valores. Por outro lado, o destino de um indivíduo é em sua maior parte predefinido quando faz parte de uma família que escolheu o mal, como a família criminosa Sanfino da segunda temporada da série, ou então compartilha a queda de famílias postiças perigosas, como as onipresentes gangues.

Enquanto grupo de irmãos (e irmãs), os membros do DPNY são quase como parentes de sangue. As exigências dessa família que é a fraternidade policial muitas vezes sobrecarregam os verdadeiros maridos, esposas e filhos de seus membros, mas os vínculos são em certo sentido mais poderosos pois os parceiros no trabalho enfrentam a vida e a morte diariamente de uma maneira que as famílias de sangue raramente fazem. Talvez mais importante que isso, o DPNY está entre as poucas instituições na sociedade que parecem ser de fato indiferentes à cor de seus membros, funcionando de acordo com os ideais mais elevados do credo americano, e em que o conteúdo do caráter de alguém ultrapassa em muito a cor da pele – isso pelo menos no mundo de Blue Bloods.

Essas abstrações ganham vida na família Reagan. Eles são a aristocracia policial, uma dupla avô-pai de comissários de polícia cuja terceira geração é composta por um detetive, um policial ostensivo e uma filha que atua como procuradora-adjunta do distrito de Manhattan. É muito fácil hoje em dia encarar os personagens principais como estereótipos, mas isso seria compreender mal a mensagem da série. Os Reagans são na verdade arquétipos, previsíveis talvez, mas cujas virtudes clássicas fornecem os meios para enxergarmos o mundo em que vivem.

O núcleo da família é Frank Reagan, interpretado por Tom Selleck. Sendo o atual comissário de polícia, Frank é um exemplo de sabedoria sustentada pela fé e guiada pela experiência e pelo temperamento. Ser sábio, porém, não significa ser infalível, e são os passos em falso de Frank que destacam as virtudes que, em última instância, o norteiam. Seu gosto em citar o comissário de polícia de Nova York, Theodore Roosevelt (talvez uma escolha pessoal de Selleck), garante que uma boa quantidade de aforismos acerca da formação do caráter seja transmitida pela TV.

Selleck, nos anos que se seguiram ao seu grande seriado Magnum, tornou-se uma espécie de consciência nacional, quase um equivalente televisivo de Clint Eastwood. Seus papéis em um número de westerns notáveis e na série de filmes do personagem Jesse Stone, bem como em Blue Bloods, celebram a firmeza de caráter e a estabilidade daqueles guiados por uma moralidade profunda ao invés de um oportunismo de ocasião.

Os outros membros do clã Reagan representam outras virtudes ou elementos relacionados, como a tradição (Len Cariou como Henry Reagan, o pai de Frank e seu antecessor como comissário de polícia), a coragem (o filho Danny Reagan, interpretado pelo astro da série Donnie Wahlberg) e a temperança (Bridget Moynahan como a procuradora-adjunta Erin Reagan). Como arquétipos, eles enfrentam mas não se deixam alterar pelo dilúvio de miséria, horror e pecado que encontram diariamente.

Se há em Blue Bloods um personagem numa jornada pessoal, é o filho mais novo, Jamie (Will Estes), um advogado formado em Harvard que se juntou à força depois que seu irmão mais velho Joe foi morto no cumpriomento do dever. Blue Bloods começa com a formatura de Jamie na Academia de Polícia, e sua luta para conciliar a lei dos tribunais que ele estudou e a lei das ruas em que ele deve sobreviver revela um personagem em busca da verdade. De forma mais indireta, assim é também com a filha adolescente de Erin, Nicky (Sami Gayle), cujo desafio de crescer com apenas um dos pais dá ao programa a chance de explorar problemas enfrentados pelos jovens contemporâneos, como o abuso de drogas, a sexualidade e as mídias sociais.

Uma vez que tanto Henry quanto Frank são viúvos, Linda (Amy Carlson), esposa de Danny, ocupa um papel especial na família. É a única Reagan que não é parente de sangue, mas ela serve como centro materno do clã, tanto para seus dois filhos como para toda a família. Sentada à esquerda de Frank na mesa de jantar, ela é muitas vezes a árbitra na batalha entre as várias virtudes.

Os jantares de domingo da família são o ponto central da série. O que poderia ser uma forma pouco original de reunir o elenco torna-se, em vez disso, a vitrine para alguns dos argumentos, para não dizer ideologias, mais fortes da série. As reuniões do jantar nos recordam não só que a família é a unidade indispensável da sociedade, mas também o berço da democracia e da moral. É onde a tradição é passada, as idéias são debatidas, e os jovens aprendem a ser cidadãos. As discussões da família Reagan variam entre teoria do Direito, ensinamentos da Igreja, ética e conceitos de ciências sociais. Poucos outros dramas televisivos discutiriam a teoria das “janelas quebradas” do falecido James Q. Wilson, ou mostrariam sem o menor traço de ironia seus personagens rendendo graças e pedindo a bênção entre si.

Fora da mesa de jantar, Blue Bloods não tem medo de assuntos controversos. Relações raciais estão perto do topo da lista de temas recorrentes. A série retrata com precisão o perfil demográfico dos criminosos. Não dá guarida aos promotores da divisão racial, como o exótico Reverendo Darnell (em excelente interpretação de Ato Essandoh). Um episódio sobre um policial branco que atirou e matou um jovem negro que poderia ou não estar armado, desencadeando protestos na comunidade, foi ao ar em novembro de 2013, nove meses antes de Ferguson e da morte de Michael Brown. Nem todos os policiais são santos, mas os criminosos de Blue Bloods não são retratados como vítimas incompreendidas da sociedade, como os criminosos o são tantas vezes hoje. Nem a misericórdia está ausente das ações daqueles que detêm a responsabilidade de proteger os inocentes e punir os culpados. É nesta versão moderna e urbana do Velho Oeste que os membros do clã Reagan saem de seu rancho de Bay Ridge para lutar pela justiça e pelas antigas virtudes.

A série em si é uma forma virtual dos jantares de domingo do clã Reagan, onde se discutem e se debatem as questões difíceis e às vezes sem resposta da vida e da sociedade moderna. As tramas não têm reviravoltas e as conclusões raramente são sutis. No entanto não há nada de errado, e muito de certo, em sermos lembrados toda semana de lições atemporais que a maioria de nós já sabe, mas muitos se esqueceram.

Se as características de Blue Bloods são surpreendentemente conservadores para a TV, isso é um reflexo mais dos tempos do que sobre dos escritores ou produtores. Enquanto uma antiquada série policial, ela pode dar ao público o que ele quer. Mas os aristocratas de Blue Bloods também dão às pessoas o que elas precisam.

[*] Michael Auslin. “Ponderosa on the Hudson: The Parables of Blue Bloods”. National Review, 6 de Fevereiro de 2016.

Tradução: Felipe Alves

Revisão: Rodrigo Carmo

[1] Uma série de TV de 2000-2001, concebida como uma prequel de Bonanza.

1 comentário

  • Sergio Roberto bueno

    Parabéns por trazer este texto desda excelente serie, assisto desde a primeira temporada e sempre manteve a qualidade dos episódios, um ponto que o autor não colocou foi que todos os Reagans menos o Jamie são veteranos das ultimas guerras travadas pelos EUA, no qual coloca então o Jamie como um paladino alguém que sempre tenta ajuda o próximo e ver a bondade e liberdade na humanidade, enquanto o irmão, o pai e o avo já testemunharam o custo da liberdade e ao qual pronto a crueldade dos homens por chegar.

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