Batman vs Superman: A guerra cultural toma proporções míticas

Por Armond White [*]

zacksniderZack Syder foi corajoso ao injetar conteúdo moral e político em uma aventura de super-herói. Fanboys não são proprietários da franquia de filmes do Superman e do Batman, então o diretor Zack Snyder foi contra a turba e se atreveu a elevar o gênero para o nível de sofisticação [de entretenimento] adulto em O Homem de Aço (2013), o filme de super-herói mais intenso e emocionante já realizado (Os fanboys o detestaram). A sequência de Snyder, Batman vs Superman: A Origem da Justiça, acrescenta a política, trazendo para a fantasia algumas preocupações contemporâneas do mundo real. Esta não é uma alegoria de quadrinhos convencional, em vez disso, Snyder usa as figuras de Batman (Ben Affleck) e Superman (Henry Cavill) brigando entre si para dar substância visível às questões sociais e morais, do mesmo modo que a tragédia grega faz. Ele apresenta um Mundo Bizarro ficcional mais selvagem — onde dois super-heróis viram superinimigos — e utiliza essa premissa para explicar nossos dilemas atuais envolvendo poder, princípios e divindade.

O fato de Snyder ser um visionário, propenso a um espetáculo extravagante e dotado de um toque erótico como assinatura [pessoal] também ajuda. Uma cena inicial associa violência, riqueza, perda e sofrimento através de imagens simbólicas de balas, pérolas, sangue e lágrimas. Isso é testemunhado pelo jovem Bruce Wayne, um milionário órfão e paranóico que interpreta erroneamente o envolvimento de Superman na batalha do filme anterior que devastou Metropolis (e traumatizou a cidade vizinha, Gotham), o que o leva a jurar uma vingança de vigilante. Com um título sucinto, Batman vs Superman reflete a confusão que coloca secularistas contra cristãos e o partidarismo que inibe a aliança nacional. Esta tensão é tão amplificada visualmente que a oposição de Batman a Superman é reveladora: o homem versus a centelha de Deus que habita em cada um de nós.

As cenas de abertura de Snyder entrelaçam as histórias da origem desses heróis míticos e seus alter egos. O que se tornou excessivamente familiar através dos anos de repetição [dessas origens] adquire a nova dinâmica — e um novo entendimento — de que o sofrimento de cada homem ressentido molda seu caráter e individualidade. Há mais mudanças audaciosas (letreiros de cinema anunciam A Marca do Zorro de 1940 e Excalibur de 1981 — sugerindo a evolução da história), mas essa é a proposição de Snyder sobre a natureza do heroísmo e da vingança: Ambos derivam da forma como os indivíduos reagem e interpretam as suas experiências. Ao usar de forma inteligente o conflito interior e o antagonismo político, Snyder supera completamente a trilogia de Christopher Nolan: Batman Begins, O Cavaleiro das Trevas e O Cavaleiro das Trevas Ressurge — todos nefastos — que foram termômetros de nosso declínio cultural.

Fanboys preferem os filmes de Nolan por seu enfoque “sombrio,” que enfatiza a falta de juízo, a pseudo-tragédia das HQs de Batman. Mas o enfoque mais adulto de Snyder encontra o centro nevrálgico emocional do tema. Isso desagrada o fanboy/hipster cujo constrangimento sentimental foi explorado por meio da violência sem emoção de Nolan e do niilismo pós-11/9. Snyder contrapõe a crise cultural e (através do roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer) visualiza a luta moral milenar como um mito popular. Seu tema essencial é a luta da humanidade para descobrir a compaixão, bem como o dever comum — ou seria, usando um termo não-político, a fraternidade?

batmanA dor do pós-11/9, refletida por Nolan nos filmes do Batman, foi uma mudança de paradigma. Mas a fantasia não pode ser apreciada conscientemente à maneira de Nolan, sem qualquer sentido de consequência social, histórica ou moral. Snyder manipula esse novo paradigma para que o sentido de destruição da humanidade seja personificado por Batman, Superman e seu arqui-inimigo, Lex Luthor. (Todas as três performances dos personagens são perfeitas.) Quando a motivação do Superman é questionada, o ceticismo e a difamação criam um antagonismo entre ele e Batman que Snyder estabelece como um conflito ideológico onde Luthor o intensifica. Luthor (Jesse Eisenberg, que interpretou Mark Zuckerberg em A Rede Social e que personifica o covarde do milênio) cinicamente lamenta-se sobre “A mentira mais antiga da América: que o poder pode ser inocente.” Ele até ameaça uma senadora (Holly Hunter) que lidera uma investigação sobre a culpa do Superman. A obsessão de Luthor com o Superman (“Ele não responde a ninguém, nem mesmo, penso eu, a Deus.”) revela uma inveja que é inegavelmente demoníaca, um desdobramento que é coerente com a visão espiritual-social de Snyder sobre a tristeza e o desejo de salvação do pós-11/9. Ele cria a imagem do primeiro grande filme do ano ao examinar a “divindade” do Superman, quando ele está cercado pela multidão no dia dos mortos. A cena ecoa nosso desespero atual referente ao “populismo” — e isso é realmente audacioso.

Entre os cineastas americanos proeminentes de hoje, Snyder tem um interesse excêntrico na expressão espiritual dos conflitos de seus personagens. Da saga dos 300 [de Esparta] a fábula antropomórfica A Lenda dos Guardiões, Snyder demonstra o talento de um cartunista ao elaborar [a luta entre] o bem e o mal. Somente alguém com uma imaginação moral surrealista para reprovar o caos da trilogia de Nolan. Observe o segundo ponto alto [do filme] de Snyder: o pesadelo de Batman de lutar contra o Superman, além de seus próprios e enigmáticos demônios imaginados como vespas humanóides. A cena passa de forma agonizantemente lenta (embora não esteja em câmera lenta), tornando-se cada vez mais alucinatória. Ela combina imagens de HQs com os mais antigos mitos ocidentais.

batsupsNesta época de futilidades da Marvel, a maioria dos filmes sobre super-heróis de quadrinhos simplesmente perpetua fantasias de poder, mas Snyder, emplacando em sua estética pessoal, apresenta corajosamente um filme que examina essas fantasias. Ele desafia audaciosamente a deterioração atual da cultura popular. O Homem de Aço foi uma resposta magnífica, extremamente satisfatória para o que está por vezes ausente na cultura pop, e Batman vs Superman propõe mais ideias sem resolvê-las (por enquanto). Uma tentativa de invocar outros super-heróis da DC Comics, começando com a Mulher-Maravilha (Gal Gadot, acompanhada por tambores tribais que lembram a fantasia feminista aterradora de Snyder, em Sucker Punch — Mundo Surreal), em última análise, não se concretiza, e Snyder, obrigado a apaziguar as hordas da Marvel, permite que um par de cenas de luta transforme a turbulência dos Vingadores em algo banal.

Em uma entrevista, Snyder descreveu o ódio de Batman pelo Superman como “uma descoberta do reforço dessas crenças feitas pela mídia”. Então, Snyder contratou um elenco de apoio de analistas políticos que ampliam Batman vs Superman com comentários de uma espécie de meta-mídia: Anderson Cooper, Charlie Rose e Nancy Grace estão entre aqueles que cruzam a fronteira dos noticiários de TV [em direção] a uma fantasia de Hollywood. Eles freqüentemente, e descaradamente, obscurecem a distinção entre o fato e a ficção, a objetividade e a venalidade, a mendacidade e a verdade. Isso vem acontecendo ao menos desde a década de 1990, e ainda é um problema tanto para o jornalismo quanto para Hollywood (Nancy Grace, Lawrence O’Donnell e o Dr. Drew Pinsky apareceram na semana passada no Midnight Special). Soledad O’Brien e Neil deGrasse Tyson também aparecem em Batman vs Superman juntos de Andrew Sullivan, onde são vistos gritando: “Todo ato é um ato político!”. Isso pode ser assim (Snyder é um sujeito sagaz), mas especialistas que não aderem aos seus trabalhos perdem a credibilidade.

[*] Armond White. “Batman vs Superman Returns Soul to Superheroes”. National Review, 25 de Março de 2016.

Tradução: Rodrigo Carmo

Revisão: Felipe Galves Duarte

1 comentário

  • Rev. João Paulo Farias Costa

    “BATMAN VS SUPERMAN [Não contém spoiler]
    Aproveitando que tinha o dia livre, aqui em Portugal, fui assistir Batman vs Superman. Esses dois super-heróis já estavam por aí desde a minha adolescência. Em resumo: faz tempo que não assisto um filme de ficção e aventura tão carregado de questões filosóficas, religiosas e existenciais:
    1) A existência de Deus;
    2) O velho dilema proposto pelos ateus entre a onipotência de Deus e a sua bondade;
    3) Quem define o que é o bem? Aquele que tem o poder ou a comunidade?
    4) A existência do mal no mundo e a corrupção de todos os seres humanos por ele;
    5) Os deuses das antigas religiões eram aliens;
    6) Existe uma necessidade da humanidade de fabricar salvadores e messias, e considerá-los deuses;
    7) A morte de Deus;
    8) O anseio pela ressurreição; e outros.
    Embora tente passar alguma esperança na humanidade, o filme é niilista, existencialista e pessimista. Mas, o que esperar da cosmovisão materialista e ateísta que permeia Hollywood? E pra não dizer que não falei de flores, as cenas de ação e os efeitos computadorizados são bonzinhos…”

    Extraído do Facebook do Rev. Augustus Nicodemus
    https://www.facebook.com/augustusnicodemus/posts/1069241576469669

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