Até o último homem e Loving oferecem duas visões do Inferno na Terra

Por Armond White [*]

Até o último homem, de Mel Gibson, é muito mais do que um filme de Guerra. Intitulado em homenagem à Batalha de Okinawa no blefe japonês conhecido como Hacksaw Ridge, ele conta a história real de Desmond Doss, um religioso objetor de consciência que, apesar disso, salvou a vida de dezenas de soldados enquanto servia como médico do campo de batalha durante os últimos dias da Segunda Guerra Mundial. Doss recebeu a Medalha de Honra do Presidente Truman, mas ironicamente o filme é trabalho de um famoso cineasta cristão que foi esmagado publicamente pela mídia mainstream (secular), que fustigou o seu filme de 2004, A Paixão de Cristo. (Discutido em meu artigo de 2014 para a NRO, O ano em que a cultura faliu.

Com Até o último homem, Gibson responde abertamente ao que agora se tornou uma rotina de tentativa de assassinato de reputações pela mídia; ele concebe a Batalha de Okinawa como um teste de moralidade e de fé religiosa. Doss, um adventista do sétimo dia nascido na Virgínia (interpretado por Andrew Garfield), declarou-se objetor de consciência baseado no seu pacifismo cristão pessoal. Gibson mostra como esse pacifismo decorre no histórico de Doss: Tendo crescido como um viciado em violência, filho do veterano da Primeira Guerra amargamente traumatizado (Hugo Weaving), Doss, como adulto, transforma-se num devoto pacifista que entra em atrito com a tradição militar para conquistar seu direito de servir nas forças armadas. O que ele encontrou enquanto seguia sua fé e dever é retratado de modo emocionante no filme, mas é a camada emocional subjacente que faz Até o último homem extraordinário.

Gibson liquida com o clichê do “filme anti-guerra” com um cenário potencializado dos horrores da guerra. Suas cenas de carnificina e selvageria possuem intensidade quase surreal. O imaginário do terreno bruto enfumaçado com chamas, corpos mutilados e carbonizados em pilhas mortais, mais o som metálico da artilharia e os sofridos uivos humanos expressam fascínio e repugnância. Se trata de uma visão masculina agressão masculina condicionada por um senso de horror. Obviamente, isso não é um horror documental relembrado de experiência real em guerra. Ao invés disso, Gibson solta a ambiguidade que ele provavelmente adquiriu como um macho intelectual (Sendo, a um só tempo, a estrela de filmes violentos nas décadas de 80 e 90 e um artista ambicioso e perceptivo). Até o último homem é sensibilizado pela humildade de um homem magoado e a sinceridade de um pensador. Desse modo, a visão que o filme tem do Inferno na Terra tem uma autoridade peculiar.

É claro que Gibson está plenamente consciente da inumanidade do homem para com o homem, talvez mais do que qualquer outra pessoa em Hollywood. Ele não teve que participar de fato de um combate para aprender sobre a selvageria humana; a mídia mainstream o ensinou isso. Mas junto com a dramatização da vida familiar de Doss e seu cortejo a Dorothy (Teresa Palmer), a brava e adorável enfermeira com quem ele casa, Até o último homem disseca a agressividade militar e sua completa ligação com o caráter masculino. O Doss de Garfield desconfortavelmente relembra a performance pacifista de Anthony Perkins em Friendly Persuasion. No mais, vários soldados americanos feridos são memoravelmente registrados por Vince Vaughn, Sam Worthington e Luke Bracey como homens que se sacrificaram enquanto lidavam com problemas pessoais. (Esses conflitos são dramatizados desembaraçadamente pelos roteiristas Robert Schenkken e Andrew Knight.)

Até o último homem fornece o muito aguardado revide cultural à violência em O Resgate do Soldado Ryan, homenagem comovente de Steven Spielberg ao martírio da Segunda Guerra Mundial. Mas o filme de Spielberg não precisa ser o longa definitivo sobre a Segunda Grande Guerra, e nem o deveriam ser Além da Linha Vermelha, do Terrence Malick e o díptico de Clint Eastwood, As Bandeiras dos Nossos Pais e Cartas de Iwo Jima, ou Bastardos Inglórios, de Tarantino. Gibson renuncia à presunção de todos esses filmes e provê a substância – a reprovação da violência – ausente de todos aqueles longas que são tão desavergonhadamente entorpecidos pelo entusiasmo infantil de lutas e morte. (O pai de Doss reclama que sua mãe ensina que “o mundo é um lugar suave e gentil” enquanto também repreende o acanhamento do filho: “Você tem que sentar, pensar e rezar para tudo. Olhe pra você!” O Mad Max original finalmente cresce quando Doss ousadamente resgata americanos feridos da matança japonesa: “Por favor, Deus, ajude-me a salvar mais um.”

É estranho ver um filme contemporâneo que retrata a Guerra sem criticismos partidários ou reprimendas políticas. Até o último homem tem o valor patriótico e intrépida franqueza que lembra Sargento York, o filme de 1941 de Gary Cooper. Mas aquilo foi de uma era diferente, menos hostil à ideia do empenho militar americano. Gibson desafia a hostilidade secular de hoje expondo a confiança guiada por princípios de Doss.

Até o último homem não é uma história oficial da Segunda Guerra Mundial; sua força visionária e emocional lembra a essência do heroísmo cinematográfico. As cenas de batalha de Gibson evocam o grande rito da “Guerra e Paz” em The Birth of a Nation de D.W. Griffith e transforma sua melancolia, sarcasmo e cordial pacifismo num épico do gênero “Horrores da Guerra”. Uma composição contrastando o seppuku japonês com a fé americana é uma sobreposição imparcial e espiritualmente profunda. Para expectadores atenciosos, Até o último homem irá dar mais pano pra manga do que a história de Doss; é também o inferno na terra pessoal de Gibson, e uma retaliação à guerra contra suas convicções cristãs.

O casal inter-racial cuja luta pela igualdade no casamento percorreu todo o caminho até a Suprema Corte, que os entregou uma vitória constitucional válida para toda a nação em 1967, servem de par maçante em Loving, o novo filme sobre direitos civis. Os atores Joel Edgerton e Ruth Negga retratam Richard e Mildred Loving, que desafiaram as leis não miscigenarias do Estado da Virgínia. Nesse filme, os bons atores essencialmente mostram pessoas tristes parecendo tristes – um pedreiro louro platinado e uma dona de casa lamentosa. Loving não é uma história de amor, sobre o desbravamento, ou mesmo um exame complexo da fidelidade matrimonial, como o Loving de Irvin Kershner, de 1970, no qual George Segal e Eva Marie Saint mostraram como a revolução sexual e o feminismo afetaram as relações entre homens e mulheres. Ao invés disso, esse Loving é uma recapitulação ordinária de um momento histórico que, por causa do Efeito Obama incorporado pelo diretor Jeff Nichols, pode ser contemplado somente com condescendência ou autocongratulação.

Ao invés de transmitir a paixão entre um homem e uma mulher, Loving idealiza as culturas sulistas negras e brancas, apresentando uma utopia de drag racing[1] inter-racial e indulgência coletiva que ignora todo o contexto social. Esses Richard e Mildred não são apenas pessoas boas cegas às cores; eles são uma dupla quintessencialmente infeliz. Eles fazem bebês, mas não fazem história; A história acontece a eles, e o filme propõe que simplesmente respeitemos seus sentimentos por piedade. Mas cadê o romance?

Em 1962, One Potato, Two Potato foi o primeiro filme mainstream a mostrar um romance inter-racial. O diretor Larry Peerce e os atores Barbara Barrie e Bernie Williams contrastaram o desejo pessoal de um casal à anomalia da sociedade. Apesar do histórico dos personagens, Peerce ousadamente sugeriu que o ardor deles forneceu um alívio emocional (simbolizado na cena infantil da amarelinha) apesar dos conflitos pessoais e inseguranças. Quando revivido mês passado no cinema Metrograph, em Nova York, o filme continuava poderoso particularmente a cena na qual Williams, sozinho num cinema drive in, desabafa sua raiva sobre o racismo branco, e também o clímax inesperadamente perturbador.

Mas falta tal poder a Loving. Nichols falha em evocar a cultura sulista, apesar de ele ter feito isso muito efetivamente em seu filme de estréia, Shotgun Stories. Exceto pelo bom momento quando Mildred volta pra casa e respira o ar do campo, ele cai na paródia regionalista de seu criticamente enaltecido Mud. Loving é projetado para ganhar os elogios e distinções tipicamente despejados em anestésicos politicamente corretos (Os negros de fundo são estóicos, os brancos são pulhas). O imoto espetáculo do romance inter-racial tenciona ser uma metáfora ao “casamento” gay, mas se Nichols não consegue sequer tratar corretamente de um problema, muito menos consegue discursar sobre as tensões e preocupações que definem outras experiências sociais. (O filme húngaro de 1983, Forbidden Relations/Recidivists alcança a provocação política que Loving aspira.)

Notem que o advogado da ACLU[2] (Nick Kroll encarnando Oscar Levant) constrói o argumento de que “o Estado acredita que os filhos do casal são bastardos.” A palavra “bastardo” soa insignificante e antiquada num mundo pós-Madonna. Isso é coisa de filme para a TV. Quando questões pessoais são tratadas tão simploriamente – como ideias sociais já previamente decididas por sentimentos – todos nos tornamos bastardos do progressismo.

[*] Armond White. “Hacksaw Ridge and Loving offer two visions of hell on earth”. National Review, 4 de Novembro de 2016.

Tradução: Yuri Mayal

Revisão: Rodrigo Carmo

[1] Drag Racing é um tipo de corrida na qual apenas dois motoristas competem, lado a lado, com a pista geralmente dividida entre seus carros.

[2] American Civil Liberties Union

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