As mulheres realmente têm sido beneficiadas na Suécia?

Por Margaret Wente [*]

Ah, estar na Suécia, o paraíso feminista na terra! A igualdade de gênero está enraizada ao DNA da nação. As mulheres suecas têm vantagens que só podemos sonhar em ter – creche infantil de graça, por exemplo. Mães e pais têm 480 (!) dias de licença parental. Um extenso sistema de benefícios sociais torna fácil o equilíbrio entre o trabalho e a vida familiar.

O resultado é que aproximadamente oitenta por cento das mães suecas fazem parte da força de trabalho nacional. (Nos Estados Unidos e no Canadá, esse número gira em torno de setenta e três por cento). As mulheres também compõem quarenta e cinco por cento do Parlamento Sueco, o Riksdag.

O país está zelosamente derrubando as barreiras que prendem as mulheres. As pré-escolas fazem esforços extraordinários para encorajar papéis **sem gênero. Uma escola está experimentando um pronome de gênero neutro, assim as crianças pensarão uma nas outras não como meninas e meninos, mas como “colegas”. Os “catálogos unissex” de brinquedos mostram garotos brincando com bonecas e garotas brincando com armas de água. Alguns cinemas na Suécia criaram um novo tipo de avaliação de gênero de filmes, o teste de Bechdel. (Para passar, um filme necessita ter pelo menos duas personagens femininas que falem entre si sobre algo além de homens).

A Suécia e outras nações nórdicas parecem sempre liderar o ranking de melhores países do mundo para mulheres (o Canadá tem sorte de estar no Top 20). Desta forma elas são laboratórios perfeitos para descobrir o que as mulheres realmente querem: quais escolhas as mulheres farão quando o campo de ação estiver tão nivelado quanto uma política social consegue torná-lo?

Temo que as respostas desapontem muitas pessoas. E isto incluí Sheryl Sandberg, a aclamada autora da obra Lean In[1], que escreveu, “Um mundo verdadeiramente igualitário seria aquele onde as mulheres comandassem metade de nossas nações e empresas, e os homens comandassem metade de nossas casas”.

O problema é que as mulheres mais livres do mundo não estão resistindo – na verdade, muitas estão se acomodando. Elas trabalham menos horas e ganham menos dinheiro que os homens, da mesma maneira que as mulheres canadenses. De fato, as mulheres suecas estão muito mais propensas a ter trabalhos de meio-período do que ocupar altos cargos administrativos ou a serem diretoras executivas. Além do mais, o mercado de trabalho escandinavo tem a mais alta segregação de gênero do mundo desenvolvido.

As mulheres de fato compõem vinte e cinco por cento dos quadros corporativos da Suécia, mas só para preencher cotas. A maior concentração de gerentes sênior, diretoras executivas e outras mulheres em altos cargos bem pagos não está na Escandinávia. Está na América do Norte, onde a vida das mulheres trabalhadoras é muito mais difícil.

Acontece que todas estas políticas amigáveis para com a família têm um impacto involuntário na disparidade de gênero, como Kay Hymowitz e muitos outros perceberam. Ao facilitarem e as mulheres saiam da força de trabalho e trabalhem poucas horas, o progresso em suas carreiras torna-se difícil. Os homens suecos também têm essas opções, mas eles não as escolhem. Então as mulheres não avançam tanto quanto os homens. E elas também são consideradas menos desejadas para o trabalho pelos empregadores das empresas que precisam de pessoas para trabalhar por várias horas todos os dias.

Em qualquer caso, apenas uma pequena porção das mulheres nórdicas optam por trabalhar como gerentes e profissionais. A maioria opta por trabalhos com baixas remunerações, e altamente segregados. Como Alison Wolf escreveu na excelente obra The XX Factor (O Elemento XX, em tradução literal), os países escandinavos “mantém o recorde de segregação de gênero porque eles promoverem profundamente a terceirização das atividades tradicionalmente femininas e tornaram o serviço caseiro não pago em emprego formal”.

Apesar dos esforços veementes para enfrentar estereótipos de gênero, boa parte das garotas suecas ainda preferiria trabalhar em creches ou se tornarem enfermeiras quando crescessem. E os garotos prefeririam ser soldadores e caminhoneiros. E isso não é tudo. Para o extremo desgosto dos engenheiros sociais por toda a Escandinávia, as mães ainda recebem a maior parte da licença parental. A maioria dos homens pede licença parental somente quando uma parte dela é destinada exclusivamente aos pais.

Aqui temos uma possibilidade ainda mais alarmante. E se as pessoas na maioria das nações desenvolvidas estiverem mais propensas a expressar mais disparidade de gênero e não menos?

Estudos sobre pessoas em mais de sessenta países em todo o mundo constataram que muitos dos comportamentos segregativos de gênero são culturalmente universais – os homens em todas as culturas tendem a ser mais assertivos e emocionalmente pouco expressivos, enquanto que as mulheres são mais cuidadosas e cooperativas. Porém, de acordo com o relatório surpreendente de uma pesquisa, a diferença entre os traços de personalidade de mulheres e homens, é mais nítida em países altamente desenvolvidos.

Os pesquisadores acreditam que motivo é que as pessoas das sociedades ricas e educadas são mais livres para se expressar. Como argumentou a escritora Christina Hoff Sommers poucos meses atrás na revista The Atlantic, “E se a diferença de gênero for na verdade um fenômeno não de opressão, mas de bem-estar social?”

Não tenho ideia se isso é certo, mas é extremamente sugestivo. Isso poderia, por exemplo, ser importante para o desabrochar da cultura gay por todo o mundo Ocidental. Isso poderia também explicar porque as mulheres altamente educadas – aquelas que têm uma variedade infinita de escolhas – dificilmente escolhem ser engenheiras mecânicas.

Então, aí está. Onde as mulheres vivem melhor? Isso provavelmente depende de como você entende o que é “melhor”.

Se você entende que “altos salários para mulheres e sucesso profissional” são melhores, você estaria se referindo da América do Norte. Se você entende que “alcançar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, com amplo auxílio social e muito tempo para a família e desenvolvimento pessoal” é melhor, você provavelmente escolheria a Suécia. Não há uma resposta certa, apenas respostas diferentes.

Quanto a como fazer com que as mulheres “resistam”, honestamente eu não sei. É difícil obrigá-las a fazer algo se elas não querem.

[*] Margaret Wente. “Do women really have it better in Sweden?”. The Globe and Mail, 22 de Novembro de 2013.

Tradução: Juliermis Messias

Revisão: Sara Figueiredo

[1] Em tradução livre: Resista

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