Andrew Klavan: O que há de inovador em House of Cards?

Por Andrew Klavan [*]

House of Cards não é um entretenimento de viés conservador — exceto quando [os seus idealizadores] assim o desejam.

House of Cards, uma série da Netflix sobre um político mortífero e inescrupuloso de Washington, é um programa maravilhoso, mas às vezes ultrapassa os limites da credulidade. Eu não tenho nenhuma dificuldade em acreditar que um congressista democrata empurraria um repórter na frente de um trem, mas a ideia de que alguém na imprensa tentaria expô-lo por isso é completamente ridícula. No final das contas, Barack Obama empurra repórteres na frente de ônibus há seis anos e ninguém diz uma palavra. Ah, bem. Se esse seriado deixa os políticos de esquerda com pesadelos sobre serem responsabilizados por suas ações através de jornalistas americanos, eles podem simplesmente repetir: “É apenas um filme, é apenas um filme.”

House of Cards representa uma ameaça mais realista para os esquerdistas. No entanto, o monopólio de 40 anos [da esquerda] sobre a narrativa política nas artes — e sua lista negra tácita de qualquer um que tente contrapor tal narrativa — finalmente pode estar chegando ao fim. House of Cards não é, como o ativista de esquerda Randy Shaw escreveu em um artigo desdenhoso e negligente no Huffington Post, um “mundo de fantasia Republicano,” nem tampouco trata-se de pura hipocrisia esquerdista. Isso, por si só, faz com que ela seja uma Novidade no panorama do show-business.

Deixemos de lado as questões maiores por um momento e vamos considerar um trecho do terceiro episódio da segunda temporada. A repórter Janine Skorsky — interpretada com perfeição por Constance Zimmer — largou as intrigas de Washington para ensinar jornalismo em uma faculdade desconhecida em Ithaca, Nova Iorque. Nós a vemos pregando um sermão para a classe sobre a forma como uma narrativa manipulada na mídia pode prevalecer sobre os fatos. Seu exemplo? Em 1992, liderados pelo New York Times, os meios de comunicação de esquerda informaram que o presidente George H. W. Bush ficara surpreso ao ver um scanner de código de barras na fila do caixa em um supermercado. O presidente foi descrito como um aristocrata fora de sintonia com o homem comum. Na verdade, como Skorsky explica aos seus alunos, o presidente estava apenas comentando sobre a nova tecnologia de ponta do scanner.

Bem, uau! Sério, apenas uau. Seria difícil de expressar plenamente a raridade de um momento assim no show-business. É quase uma lei tácita de Hollywood, onde qualquer referência política da vida real [mesmo sendo de relance] em um filme ou programa televisivo deve favorecer a esquerda. Em True Detective, da HBO, um evangelista macabro e corrupto antecipa o programa de voucher escolar que lhe permitirá reabrir suas escolas religiosas molestadoras de crianças. Vouchers escolares! Muah ha ha! Em Glee, quando a professora de educação física quer chamar seus alunos de estúpidos, ela compara-os com a Sarah Palin, embora Palin possua um corte de cabelo mais inteligente [**] que Joe Biden. Mesmo em House of Cards, o Tea Party é usado como uma abreviação mais para a intransigência política do que seria, digamos, para a integridade constitucional. O formidável guerreiro da cultura, John Nolte, do blog da Breitbart, o Big Hollywood, chamou esta artimanha da esquerda de “engana-trouxas,” e ele realmente formou um “Esquadrão de engana-trouxas” para ajudar a expô-los. “Deve ser bom ser um esquerdista e NUNCA ter de se preocupar com algum produtor de programa infantil dando palpite. . . em algo que você acredita verdadeiramente,” escreveu Nolte.

Para um programa de televisão de qualidade e alto nível como o House of Cards, fazer uma referência sem cerimônia a um incidente da vida real em que uma imprensa de esquerda maciçamente tendenciosa calunia um republicano para reforçar a sua falsa narrativa. . . Eu digo a vocês, gente: é praticamente inédito. É possível, então, que estejamos assistindo a um programa conservador? Bem, sim e não.

House of Cards tem suas origens em um romance britânico escrito por Michael Dobbs, um ex-chefe de gabinete na sede do Partido Conservador no Reino Unido. Mas o congressista malvado do romance é ele próprio um Tory, em busca do poder após os anos [do governo] Thatcher. Eu não sei a política de Andrew Davies, que escreveu a tão aclamada série de televisão da BBC, mas as pessoas envolvidas no remake da Netflix cuja política eu consigo identificar — incluindo a grande atuação do ator Kevin Spacey —, são todas seguramente de esquerda. (Mas, mesmo assim, os conservadores de Hollywood sabem que é mais sábio manter a boca fechada.)

No entanto, na versão americana, o personagem de Spacey, um congressista homicida em busca de poder, é um democrata. Isso, por si só, beira o milagre. Mas as manobras políticas reais que impulsionam a história são ideologicamente nebulosas e irreais. Os Democratas buscam uma reforma jurídica séria, mas os republicanos estão relutantes em concordar. Sério mesmo? Os Democratas driblam os sindicatos de professores para reformar a educação. Continue sonhando! Um político republicano se apoia no princípio. . . tudo bem, é Hollywood, mas há um limite para que um sujeito possa acreditar.

De qualquer maneira, no entanto, há um ponto em que House of Cards enfraquece de forma implacável e contínua a narrativa da esquerda, seja intencionalmente ou não. De modo intenso, ela mostra o governo como exatamente o é de fato: um centro de poder, inspirando toda a perfídia desalmada e a ambição amoral que qualquer centro de poder é propenso a inspirar.

Isso é devastador para a filosofia de esquerda, porque a falha central do esquerdismo não é o seu cinismo incessante sobre o empreendedorismo, o individualismo, a religião ou o homem comum — é que o seu cinismo evapora em um faz-de-conta imbecilizante quando se trata de governar. As empresas de seguros são muito gananciosas para lidar com a assistência médica, mas o governo não. Os indivíduos são demasiado imprudentes para possuir armas, mas o governo não. A religião é corrupta demais para pregar a moral, mas o governo não. As pessoas são muito tolas para saber o que é melhor para elas, mas não o nosso velho amigo, o titio Governo. Não é de admirar que alguns conservadores pensem que os esquerdistas sejam todos uns tiranos malignos. É mais fácil do que acreditar que [os esquerdistas] poderiam realmente ser tão idiotas.

Os Fundadores da América não colocaram freios e contrapesos sobre o governo porque eles idealizavam o povo. Eles conheciam o povo muito bem, mas também sabiam que é no governo que o poder tende a se aglutinar; que é no poder que homens e mulheres se tornam mais corruptos e abusivos, e que é a corrupção e o abuso que corroem incansavelmente as paredes e vigas da catedral da liberdade, até que toda a estrutura entre em colapso como. . . um house of cards (“castelo de cartas”, em tradução livre).

[*] Andrew Klavan. “A New Thing on Netflix”. City Journal, 5 de Março de 2014.

[**] No texto original, o autor utiliza a palavra “smarter” que pode ser entendida – ao menos nesse contexto – tanto como “mais inteligente” quanto “mais elegante”. No inglês, o trocadilho possui um significado irônico, de gozação, que não é possível compreender na língua portuguesa.

Tradução: Rodrigo Carmo

Revisão: Felipe Galves Duarte

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