American Sniper: A guerra do Iraque vista através dos olhos do cidadão comum

Por J.E. Dyer

Finalmente consegui assistir ao filme American Sniper e descobri do que todo aquele burburinho se tratava. Enquanto escrevo isso, o filme já arrecadou mais de 200 milhões de dólares na sua segunda semana de estréia, tornando-o o maior lançamento de janeiro de todos os tempos, e o mais badalado filme de guerra de todos os tempos.

O cinema estava lotado quando estive lá na matinê. Em termos de mobilizar adultos para se acomodar em um cinema lotado para assistir um filme – e não apenas acompanhar crianças – a última vez que me lembro de um filme ter conseguido tal feito de lotar os cinemas continuamente foi quando A Paixão de Cristo teve seu lançamento mundial.

Inquestionavelmente o filme está agradando o público. A razão é óbvia, uma vez que você o tenha visto. American Sniper nos mostra a Guerra do Iraque pelo ponto de vista dos americanos que a lutaram. Os soldados que foram a guerra e as famílias que os enviaram, as quais ficaram com os corações no limbo durante um ano – é nessa realidade que somos convidados a entrar. Vemos as pessoas não como vítimas, não como predadores cegos, não como peões sem substância num entretenimento moralizador, mas simplesmente como eles são.

Nós os vemos de fato, como eles são. Esses são os americanos como os conhecemos. Na vida real, nós reconhecemos o que há de ordinário em cada um. Conhecemos os arquétipos que nos são apresentados, e não consideramos de mau gosto; consideramo-os normais – até mesmo ótimos.

A reação histérica da esquerda ao filme é explicada pelo modo como American Sniper valida o ponto de vista do cidadão americano comum sobre o ocorrido. Considere a parte inicial do filme, quando assistimos Chris Kyle ainda criança aprendendo com o pai: aprendendo a atirar, aprendendo a ética do chamado protetor. Clint Eastwood [o diretor] mostra essa passagem brevemente, indo direto ao ponto, propositadamente mas sem sentimentalismo. Ele deixa as coisas como são – como foram na vida de Chris Kyle – contando com o espectador para absorver e interpretá-la a vontade.

Essa é a quintessência do modo masculino de comunicação. O pacote inteiro – o conteúdo e o método de apresentá-lo – são o que a esquerda tem se empenhado em diminuir, distorcer e vilanizar nos últimos 100 anos. Esquerdistas são levados a atacar esse tipo de coisa; quando estão escrevendo histórias ou fazendo filmes, eles tem de “contextualizar” e desnaturalizar isso, com ironia e cinismo, imputando hipocrisia ou moralismo ideológico. Eles mal podem deixar tal coisa passar em branco.

Isso se deve, em parte, por que quando este tipo de coisa é deixado a própria sorte, apresentado como nada mais ou nada menos do que é de fato, os americanos respondem a isso com um entusiasmo assertivo.

Um número de coisas me impressionaram durante o filme, mas vou mencionar apenas algumas. Assista ao filme. Isso mesmo: Vá, assista. Bradley Cooper está impecável como Chris Kyle. Eu dúvido que você ache um gesto ou entonação fora do contexto. Não tenho certeza se eu escalaria Sienna Miller como Taya Kyle, mas ela me convenceu no papel. Sammy Sheik como Mustafa, o atirador olímpico e sniper adversário, está excelente em um papel quase sem falas. Eastwood fez um ótimo trabalho com os sets de filmagem e a produção; o ambiente de combate no Iraque parece realista, ao invés de algo esquisito e fantasioso (um conceito de cinematografia do qual estou de saco cheio). O resultado é impressionante, o que já é um alto prêmio.

A guerra do Iraque como a vimos

Vamos direto ao ponto. Primeiro, como o título sugere pareceu-me ao assistir American Sniper que esse filme é sobre a Guerra do Iraque e que trata justamente disto, como foi percebida e vivida pelos Americanos. A guerra do Iraque era sobre combater a ameaça terrorista na nascente, impedindo-a de chegar até a América. Essa é a narrativa básica passada na cabeça do americano mediano. Essa era a narrativa que se passava na cabeça de Chris Kyle.

Clint Eastwood não precisou elaborar o ocorrido no filme. Ele compreendia que isto já estava dentro da mente do seu público. O vilipêndio da esquerda sobre o conceito de guerra, forjado em muitos outros filmes sobre a Guerra do Iraque, é desagradável e continuará sendo. Ninguém quer assistir a um filme apesar dos horrores da guerra sem deixar os soldados estarem lá sem uma boa razão. Até o heroísmo tem seus limites, isso não se dá por nada.

O grande segredo desse filme é que a audiência que lotou as salas de cinema continuamente, dia após dia, sabe que houve um motivo para a guerra. Minha opinião é de que maioria das pessoas foi ambivalente nos importantes aspectos da guerra: algo relevante, como sua constitucionalidade, ou o Iraque como a prioridade da vez, ou os distúrbios precedentes de uma invasão e na mudança de regime de tal escala. Não é um jingoísmo descerebrado ocorrendo. É uma questão de decisões difíceis de se tomar em face de tamanha ameaça, ambivalência e incerteza.

O papel de Chris Kyle lá é o papel pelo qual passamos durante o nosso ciclo de vida. Ele foi um jovem recrutado e enviado para a Guerra. Ele foi também, um jovem que optou por ir porque – na concepção de seu pai – ele não era uma ovelha ou um lobo, mas um cão pastor. Ele estava lá para proteger.

A guerra como um rito de passagem

Isso me leva a segunda coisa que me impressionou enquanto a trama se desenvolvia. Cada pessoa teve de decidir – se a escolha fica sendo dela – quando sua vigília como cão pastor é completada. A guerra, a necessidade dela, o estado de espírito para tal, é parte da vida; e não o contrário. Clint Eastwood apresenta a realidade como ela de fato é, ao invés de tentar editar a história para fazê-la parecer um abismo mítico: algo do qual ninguém consegue retornar.

Nós vemos os horrores da Guerra nesse filme. Nós vemos os erros táticos que prejudicaram nossas operações no meado dos anos 2000. Eastwood não as maqueia. O telespectador se lembra, ao se deparar com essas coisas, a qual é uma história da vida, e não haverá um milagre de última hora com uma música tema.

Mas Eastwood não tenta nos empurrar um pacote ideológico moralizador sobre a Guerra. Os homens de fato planejam e conduzem a Guerra. Eles vem e voltam dela. A historia verdadeira do nosso envolvimento no Iraque reflete isso, assim como Chris Kyle reflete isso. Eastwod assim o permite no filme.

Quando um homem sabe que a sua parte no trauma humano da guerra especializada e visceral terminou? A realidade é que maioria dos nossos voluntários não encaram o ponto de transição como vitimas indefesas. Eles o encaram como homens ou mulheres carregando feridas, mas fazendo decisões de uma complexidade que compreende o passado e o futuro da humanidade. Eastwood retrata isso como o é de fato: não uma patologia mas uma passagem que requer sabedoria, busca e talvez uma consulta com Deus. (Complementando, os diálogos de Chris Kyle com os veteranos de guerra com quem serviu depois do seu retorno pra casa são umas das melhores cenas do filme, sem afetações mas marcantes.)

Definindo a perícia do sniper

Mais uma coisa que mencionarei aqui. Talvez isso tenha me escapado por eu conhecer muitas pessoas que atualmente estão se familiarizando com armas de fogo e a atirar. Bem cedo no filme, o pai de Chris Kyle recita o provérbio, “mire pequeno, erre pequeno.” Aqueles que aprenderam a atirar sabem que isso é mais do que uma forma de encorajamento; isso é o “diferencial.” Quando você tem a sua arma empunhada de forma correta e a conhece bem, então quanto menor o alvo que você têm em mira, menor a margem de erro, com todas as coisas dentro das proporções.

Considero a escolha de Eastwood de esclarecer isso brevemente, numa cena onde o alcance da arma é rápido o suficiente para evitar algo tipo um “documentário,” é uma tacada de mestre. Faz sentido esclarecer esse ponto em um filme sobre um sniper, é óbvio. Recordo-me de Mel Gibson em The Patriot, em que seu personagem de guerra revolucionário, Benjamin Martin ouve seus filhos recitando o mesmo adágio antes de prepararem uma armadilha para as tropas britânicas. O filme de Gibson confiou na capacidade de compreensão dos espectadores. Mas o Sniper o explica, e ajuda aos espectadores leigos em tiro a notar que há uma certa técnica aqui: uma disciplina real, cultivada com um propósito.

Ao fazer isso, o pequeno trecho preenche a lacuna entre a realidade e a lenda. American Sniper não é um filme sobre tiros impossíveis. Deixando o público a par da técnica é um jeito sutil de estabelecer parâmetros. American Sniper é um filme sobre “vigilância.” No nível a que se refere aos detalhes táticos que homens como Kyle e ele próprio foram designados a fazer durante várias semanas a fio, dando suporte aos fuzileiros navais na patrulha de infantaria com um rifle e uma mira. Mas Kyle e os seus companheiros de guerra reconhecem, assim como sua família e sua nação, que vigiar tem um significado distinto. Vigiar é uma ética, um modo de vida, para o cidadão/soldado.

Deve ser duro ter tentado furiosamente por tantos anos, assim como os esquerdistas do ocidente o fizeram, desconstruir e desvalorizar a realidade, e então encontrar tantos americanos rejeitando o trabalho de sua vida como se este nunca tivese existido. Mas milhões de americanos o fizeram.

Tradução: Direita Realista

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