Amada imortal: Canções de amor dos grandes compositores

Por Stephen M. Klugewicz [*]

O amor inspirou incontáveis compositores, e algumas dessas canções foram dedicadas ou diretamente inspiradas pela mulher amada. Aqui estão as dez melhores canções de amor já compostas…

A casa de Wagner em Tribschen. “Para onde quer que eu me vire do lado de fora de minha casa me deparo com um mundo mágico”, escreveu Richard Wagner. “Eu não conheço um lugar mais bonito na terra, nem mesmo mais acolhedor do que este”.

1. Wagner: Siegfried Idyll

Embora a reputação de Richard Wagner repouse em intensas operas mitológicas, Wagner também era capaz de realizar composições sucintas. Ele escreveu o Siegfried Idyll como um presente de aniversário para sua esposa, Cosima, que recentemente tinha lhe dado um filho, Siegfried. Wagner contratou uma orquestra de treze músicos para executar tal peça nos degraus da casa de campo da família em Tribschen, Suíça, numa manhã de Natal de 1870.

Quando acordei escutei um som que foi ficando cada vez mais intenso, percebi que não estava sonhando, a música estava soando, e que música! Quando ela cessou, Richard entrou no meu quarto com as crianças e me ofereceu de aniversário, a partitura deste poema sinfônico. Eu estava em lágrimas como o resto da minha família. Richard tinha arrumado sua orquestra nas escadarias de casa, e assim o nosso lar em Tribschen estava consagrado para sempre”.

Wagner pretendia que tal peça permanecesse íntima, mas anos mais tarde por necessitar de dinheiro, vendeu o Siegfried Idyll para um editor que expandiu sua composição.

2. Mahler: Adagietto da Symphony No. 5

Gustav Mahler escreveu duas peças para sua esposa, Alma, a canção “Liebst Du Um Schönheit” (“Se Você me ama pela Beleza”), baseado em um poema de Friedrich Rückert, e o famoso compasso de sua Quinta Sinfonia. Infortunadamente, a música Adagietto acabou sendo associada a morte — Leonard Bernstein tocou tal música no funeral de John F. Kennedy, sendo a trilha do filme Morte em Veneza (1971). Em grande parte, devido a esta associação com a morte, a maioria dos maestros têm estendido nas últimas décadas o andamento da música Adagietto, tornando-a uma canção fúnebre com duração de dez, onze ou doze minutos. E em alguns casos, se chega a deturpar suas características.

As evidências indicam que o próprio Mahler conduziu o compasso musical em cerca de oito minutos, e é esse andamento que revela a origem da peça como uma pungente carta de amor. A gravação abaixo segue os desejos de Mahler.

3. Mozart: “Grandiosa” Missa em C Menor

A Missa em C Menor foi provavelmente, o resultado da promessa de Mozart de que ele iria compor uma Missa em agradecimento a Deus, por seu casamento com Constanze Weber. “É absolutamente verdadeira essa minha obrigação moral”, escreveu o compositor ao seu pai, Leopold, logo após o casamento. “Eu fiz a promessa e espero poder cumpri-la. Quando eu fiz isso, minha esposa ainda estava solteira. Contudo, como eu estava determinado a se casar com ela, logo após a sua recuperação. Foi fácil fazê-la.”

Leopold, pai de Mozart, não aprovou a união pensando que seu filho deveria se concentrar em suas composições, considerando Constanze indigna de seu Wolfgang. Embora o jovem Mozart nunca tenha completado a missa, ele apresentou o seu trabalho inacabado na sua cidade natal, Salzburgo. Quando ele voltou para apresentar sua noiva ao pai. Constanze cantou sozinho e em soprano a Missa. Sendo uma tentativa para que Constanze caísse nas graças do aborrecido Leopold, pai do jovem Mozart. A tentativa falhou.

4. Berlioz: Symphonie Fantastique

O compositor francês, Hector Berlioz, obcecado pelo trabalho de Shakespeare. Participou de uma performance de Hamlet no Teatro Odéon em Paris. Uma segunda obsessão começou naquela noite quando ele se viu cativado pela performance da atriz irlandesa, Harriet Smithson, no papel de Ofélia. Ignorando as repetidas investidas dele, Smithson, logo, deixou Paris e Berlioz. E se voltou à composição para aliviar o seu anseio. O resultado foi uma estranha e nova obra: a Symphonie Fantastique. Que conta a história de um amante obcecado, que sonha com a mulher desejada. (parte 01)

Vai para o baile, já que ela o evita (parte 02). E depois vai para o campo e encontra um bálsamo para seu anseio, escuta a interação de chifres entre dois pastores (parte 03). Usa ópio e sonha em matar sua amada, e ser guilhotinado por seu crime (parte 04). E finalmente sonha que está participando de uma orgia durante o Sábado negro das Bruxas, onde sua morte é comemorada. O compositor colocou como nota em sua propaganda original de estreia – Fantastique: “hediondo colecionador de sombras, feitiços e monstros de todo tipo.”

Isso não é material para ser estampado em cartões. Berlioz acabou conseguindo fazer com que Smithson se cassasse com ele, mas a convivência foi miserável desde o início. Berlioz acabou fugindo com outra mulher.

5. Janáček: String Quartet (“Intimate Letters”)

Com a idade de sessenta e três anos o compositor tcheco, Leoš Janáček, conheceu e se apaixonou imediatamente por uma moça com vinte e seis anos de idade, Kamila Stösslová. Ambos já eram casados, e Stösslová estava na dúvida entre a pessoa e o compositor. No entanto, Janáček passou a escrever mais de 700 cartas de amor para a jovem durante os últimos onze anos de sua vida. “Você é tão linda em caráter e aparência que em sua companhia os espíritos são erguidos”, escreveu ele em sua primeira carta. “Felicidades para vocês. Quanto mais dolorosa é a minha desolação mais amargo é o destino”. Stösslová tornou-se a inspiração para personagens femininas em suas óperas e para diversas composições, incluindo o Quarteto de Cordas. Nas suas “Cartas íntimas”. Escreveu sobre a terceira parte do Quarteto: “Será muito alegre, mas depois sua imagem se dissolverá tornando-se transparente como se fosse névoa.”

6. Richard Strauss: “The Hero’s Companion” (de Ein Heldenleben)

A entoação do poema de Richard Strauss, A Vida de um Herói, é descaradamente autobiográfica. Embora Strauss tenha exagerado quando levantou a questão de ser um compositor que se considerava “não menos importante que Napoleão”. A peça musical descreve a vitória de um herói sobre seus inimigos. (críticos musicais?), e suas maravilhosas obras de paz (suas composições?). Sua aposentadoria em momento de glória […] e sua companheira romântica. A companheira romântica de Strauss era sua esposa, Pauline de Ahna, descrita por ele como “muito complexa, muito feminina, um pouco perversa, um pouco leviana, nunca a mesma. A cada minuto ela é diferente do que tinha sido momentos atrás”. A música “A Companheira do Herói” reflete essa caracterização de Pauline. A esposa de Strauss voltaria a aparecer como uma personagem sem nome, e musicalmente menos interessante. Na composição “Uma Vida de Herói”, a “Sinfonia Doméstica”.

7. Beethoven: “Für Elise”

Uma das peças de piano mais populares já escritas, uma breve composição de três minutos[1], só foi publicada quarenta anos após a morte de Beethoven. Para quem essa música foi dedicada continua a ser assunto gerador de grandes discussões entre os estudiosos. Quem era essa “Elise”?

Alguns sugeriram que a mulher em questão era Elisabeth Roeckel, uma amiga do compositor cujo apelido era Elise, enquanto outros argumentam que a dedicação foi transcrita incorretamente e que “Für Therese” foi dedicada para Teresa Malfatti, uma mulher que rejeitou a proposta de casamento de Beethoven. Como o assunto de sua carta não foi entregue à “Amada Imortal”, o endereço do objeto de afetos de Beethoven permanece no mistério.

8. Smetana: String Quartet No. 1, “From My Life”

O compositor checo, Bedřich Smetana, conhecido principalmente por sua ópera, The Bartered Bride, e seu ciclo de poemas sinfônicos, Má Vlast (Minha Pátria). Também escreveu trabalhos autobiográfico e de cunho pessoal, que detalha eventos na vida do compositor — incluindo o início de sua surdez.

Smetana explicou que esse trabalho “foi escrito para quatro instrumentos, um pequeno círculo de amigos que conversavam sobre o que significativamente me oprimiu […] a terceira parte — aquela que na opinião dos cavalheiros que a interpretaram tal quarteto, não é exequível — me lembra a felicidade de meu primeiro amor, a menina que mais tarde tornou-se minha primeira esposa”. Esta foi Kateřina Kolářová que morreu de tuberculose dez anos depois do casamento.

[*] Stephen M. Klugewicz. “Immortal Beloved: Musical Love Letters from the Great Composers”. The Imaginative Conservative, 13 de Fevereiro de 2017.

Tradução: Daiana Neumann

Revisão: Ricardo Gustavo Garcia de Mello

[1] Bagatelle (ENG.) ou bagadela (PTB.) no jargão dos músicos é o título dado a composições instrumentais breves.

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