A tarefa mais importante, partindo de 13/03 até 2018 e além

“Deixe-me escrever as canções de uma nação e não me importarei com quem fará as leis” – Andrew Fletcher.

Com o sucesso das manifestações em todo o Brasil, no dia 13/03/2016, é prudente avaliar alguns dos métodos que tem sido usados na luta contra este governo de aspirações tirânicas. Começam a surgir possíveis candidatos à presidência que, pelo menos em tese, podem retirar o país deste calvário rumo à uma distopia típica da extrema-esquerda. Porém, na eventualidade de um destes candidatos vencerem as eleições de 2018, este terá que lutar contra décadas de puro pensamento de extrema-esquerda. Para vencer, é necessário que o candidato tenha ao seu lado a linguagem, isto é, os frames que definam o debate político a seu favor (e a favor da verdade).

Para quem não possui familiaridade, frames são “estruturas mentais que permitem ao ser humano compreender a realidade”. O conhecimento de framing permite neutralizar um argumento hostil e retornar um argumento ainda mais contundente. É a ferramenta que permite, por exemplo, ao ser perguntado por que não se respeitam os direitos da mulher de abortar, responder apontando a hipocrisia de se falar em direitos da mulher, quando os direitos do bebê em gestação, uma pessoa completamente inocente, estão sendo sumariamente ignorados, fazendo-o pagar com a vida por um erro que ele não cometeu.

Olavo de Carvalho resume tudo isto a uma lição que precisamos aprender urgentemente: a política não está em Brasília; ela está em todo o país – escolas, igrejas, empresas, mesas de bar, e muito mais. Ao enxergar a política deste modo, fica claro há muito que podemos fazer, debatendo com as pessoas e ajudando a definir a linguagem e os frames que ajudarão a trazer a vitória no cenário cultural e, por consequência, na política.

Neste artigo, apresentamos a tradução de um dos capítulos do livro “Don’t think of an elephant” (Não pense em um elefante), de George Lakoff, renomado professor de Linguística da Universidade da Califórnia e autoridade em framing. O texto contém ataques a conservadores, visto que Lakoff é ativista de esquerda. Porém, é importante estudar autores renomados da esquerda cultural e política, filtrando o que possui utilidade, para que seja possível entender como os seus métodos funcionam e como contra-atacar.

Esperamos que este texto ajude a ilustrar a importância de buscarmos desde hoje definir a linguagem do debate.

A seguir, o trecho traduzido:

“Framing the Unframed”

Há dois erros comuns que as pessoas cometem ao pensar sobre “framing”.

O primeiro é acreditar que o “framing” é uma questão de criar slogans inteligentes, como “imposto mortal” ou “aborto com nascimento parcial”, que ressoam em um segmento significativo da população. Esses slogans só funcionam quando vem havendo uma longa campanha – às vezes, por décadas – sobre o “framing” conceitual de questões como impostos e aborto, de modo que os cérebros de muitas pessoas estejam preparados para aceitar estas expressões. Certa vez, me perguntaram se eu era capaz de redefinir (“reframing”) – ou seja, providenciar um slogan vencedor – para um projeto de lei sobre o aquecimento global “até a terça-feira que vem”. Eu ri. Um “reframing” efetivo significa mudar milhões de mentes para estarem preparadas para reconhecer uma realidade. Esta preparação não havia sido feita.

O segundo engano é acreditar que, se nós pudéssemos apresentar os fatos sobre uma certa realidade de alguma maneira efetiva, então as pessoas iriam “acordar” para aquela realidade, mudar suas opiniões pessoais e começar a agir politicamente para mudar a sociedade. “Por que as pessoas não acordarm?” é a queixa – como se as pessoas estivessem “adormecidas” e apenas tivessem que ser despertadas para ver e compreender o mundo a sua volta. Mas a realidade é que certas ideias precisam estar enraizadas em nós – desenvolvidas consistentemente ao longo do tempo e por tempo precisamente suficiente para se criar um “frame” preciso para nosso entendimento.

Aqui está um exemplo. Pensões são frequentemente enquadradas (“framed”), mesmo por aqueles que as defendem, como benefícios – “extras” concedidos por um empregador para um empregado. Mas o que é uma pensão, de fato? Uma pensão é um pagamento posterior para um trabalho já realizado. Como condição para aceitar um emprego, uma pensão é parte do seu salário ganho, retido e investido por seu empregador, que será pago mais tarde, após a aposentadoria. Então, se um empregador diz “nós só não temos dinheiro para pagar sua pensão”, isto significa que ele está extraviando, roubando ou usando indevidamente os seus ganhos, os quais, por contrato, ele é o responsável por lhe pagar. Seu empregador é um ladrão.

Eu tive várias vezes a experiência de palestrar para líderes sindicais e grupos de trabalhadores, mostrando-lhes que a pensão é um pagamento postergado por um trabalho já realizado. Obtive concordância unânime. Então eu perguntei “Vocês já disseram isso?” “Não.” “Vocês acreditam nisso?” “Sim.” “Vocês poderiam começar a dizer isso?” É aí que está a dificuldade. Até mesmo para os progressistas, é difícil alterar o quadro (“frame”) construído ao longo dos anos por comentaristas de Direita de que pensões são pagamentos por um trabalho que não foi feito.

Porém, o fato de que as pensões são pagamentos postergados é uma verdade evidente, que iria minar a ideia promulgada por comentaristas de Direita de que as pensões são pagamentos por um trabalho não realizado.

Então, por que razão as pessoas podem perceber uma verdade importante sobre um tema fundamental a elas, uma verdade que precisa se tornar pública, e não dizê-la, não fazê-la parte do seu discurso no dia a dia?

O motivo é que apenas dizer alguma coisa a alguém geralmente não faz disso um caminho neurológico que será usado diariamente ou até mesmo um caminho que se encaixe facilmente em seu circuito cerebral pré-existente – os circuitos neurais que definem seus prévios conhecimentos e formas de discurso.

É difícil dizer coisas que você não tem certeza de que o público está pronto para ouvir, dizer coisas que não vem sendo ditas centenas de vezes antes.

Como apresentado no capítulo 1, este problema tem um nome – hipocognição (“hypocognition”) – a perda do circuito neurológico geral que toma a ideia como senso comum e que se encaixa nas formas de comunicação em que normalmente alguém se envolve, as coisas que se está pronto para dizer e que as pessoas com as quais você conversa estão prontas para ouvir.

Slogans não conseguem superar a hipocognição (“hypocognition”). Apenas uma discussão pública permanente terá uma chance. Uma discussão pública que tome conhecimento do problema e tenha um comprometimento sério em larga escala para trabalhar por mudança.

Diversas questões importantes que nos confrontam agora – que vão desde o aquecimento global para além da distribuição desigual de riquezas – demandam este tipo de discussão permanente com comprometimento. Estou apresentando essa seção do livro na esperança de que vários leitores irão assumir várias tarefas, com o objetivo de estabelecer “frames” – quer dizer, modos de entendimento automáticos, fáceis e cotidianos dos quais nós desesperadamente precisamos.

Tradução: Patricia Maragoni
Revisão: cpac

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