A primeira ferrovia do Brasil

A seguir, traduzimos um trecho especial do livro “American Emperor: Dom Pedro II of Brazil” (Imperador Americano: D. Pedro II do Brasil, em tradução livre), de Rose Brown. Embora o assunto do livro seja o período entre a chegada de D. João VI e o exílio de D. Pedro II, o primeiro capítulo é composto por um diálogo, em Petrópolis, entre a autora e Otávio, morador da cidade, cujas memórias de infância e de seu pai ajudam a autora a imaginar, de um ponto de vista privilegiado, como era a vida na época de D. Pedro II. No caso da tradução a seguir, Otávio conta a história da primeira linha férrea do Brasil, construída em 1854, que ligava o início da serra de Petrópolis à Baía de Guanabara. Construída pelo Barão de Mauá, a obra foi realizada sem mão de obra escrava, por ordens de D. Pedro II. Otávio é enfático ao citar o comportamento abolicionista do Imperador. No segundo reinado, aliás, a família Imperial acumulou episódios de libertação de escravos. A estrada férrea, então, foi construída com mão de obra importada da Europa – trabalhadores alemães, que decidiram residir em Petrópolis e, hoje, compõem uma grande parte de sua população.

 

“Quando a jovem família real começou a subir por lá, no tempo de meu pai, a viagem demorava dois dias sendo somente 48 quilômetros, como você sabe. Eles tinham que dar a volta na Baía em uma estrada cheia de buracos que passava entre plantações de café. Eles chegavam ao pé da montanha cheios de lama e passavam a noite em uma casa nas plantações. A parte mais baixa da estrada era pavimentada naquele tempo, então parte da subida era feita por carruagem. Mas o resto era em liteiras sedans, redes e outras liteiras para as mulheres e crianças. A maioria dos homens ia andando. Era muito primitivo, de fato. O jovem imperador gostava disso. Ele era um belo e loiro gigante na época, que ultrapassava à todos em altura.
Então Dom Pedro II deu ao Barão de Mauá o trabalho de construir 16 quilômetros de linha ferroviária partindo da Baía até o pé dessa estrada. Foi a primeira linha férrea do Brasil. Foi inaugurada em 1854 acompanhada de muitas celebrações. Seu construtor foi ordenado Barão e o terminal da vila foi nomeado em sua homenagem. E então toda a rota foi nivelada e ficou em boa forma, como era na época em que eu ainda era menino.”

“Suponho que ela tenha sido construída por escravos.” Olhei para o muro de contenção abaixo de mim. Os blocos esplêndidos de granito deixariam as Pirâmides do Egito orgulhosas.

“Não, de maneira alguma!”, disse Otavio indignado. “Dom Pedro encerrou qualquer contratação de escravos para uso em obras públicas, e libertou de uma vez todos os escravos pertencentes ao Estado. Os trabalhadores que construíram esta estrada eram alemães importados para o trabalho, camponeses da Europa que vieram sob contrato. Meu pai disse que eles soavam estranho, falando em sua língua gutural. As pessoas loiras que você vê hoje, aqui na montanha, são seus descendentes, porque alguns deles nunca foram embora.
Dom Pedro se interessou bastante pela construção da estrada. Ele geralmente vinha ver como as coisas estavam indo. E depois se tornou um de seus passeios favoritos. Quase todos os dias de sol, me lembro, depois que os compromissos no palácio acabavam, a família começava a caminhada, sendo seguidos por uma carraugem para a imperatriz, que não podia andar muito porque mancava. Você podia ouví-los chegando, com suas vozes bem altas, parando para olhar a vista de pontos diferentes na estrada. Eles conversavam com os vizinhos, davam tostões às crianças, e lembravam de todos os nossos nomes. A conversa raramente era séria, mas uma vez o imperador me perguntou o que eu pensava sobre a questão da escravidão e me convidou para visitar e ler em sua nova biblioteca pública.
Eu costumava imaginar como seria se eu pudesse trocar de lugar com ele, e eu muitas vezes me perguntei no que ele estava pensando enquanto ele pisava onde pisamos, senhora, olhando através de seu reino e sonhando com o que nós, seu povo, um dia nos tornaríamos. Mas ele tinha muitas preocupações: escravidão, superstição, doenças e política. Eu sempre decidi que não gostaria de ter seu trabalho. E, além do mais, se eu tivesse a chance de ser tão rico e poderoso, poderia eu ser tão bom e modesto?”

Olhei para aquela magnífica vista, meditando sobre aquele homem notável que esculpiu um império moderno de uma floresta tropical…

 

Tradução: Jonatas
Texto introdutório: cpac

Esta postagem é parte de uma série especial com a participação de entrevistados do projeto “A última cruzada” do Brasil Paralelo. Confira o perfil dos entrevistados e todas as participações no link: https://www.facebook.com/tradutoresdedireita/posts/1450876408331243

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *