A política precisa de uma primeira pessoa do plural

Por Sir Roger Scruton [*]

Populistas recrutam seus seguidores através do apelo direto, são amplamente indiferentes a seus oponentes e não têm nenhuma intenção, se eleitos, de ouvir a voz daqueles que não votaram neles. Se o “populismo” ameaça a estabilidade política das democracias, isso ocorre porque ele é parte de uma falha maior em apreciar a virtude e a necessidade de representação. Para que o governo representativo funcione, representantes devem ser livres para ignorar aqueles que os elegeram, para considerar cada questão em seus méritos e para atenderem aos interesses daqueles que não votaram neles tanto quanto os interesses daqueles que votaram. Este argumento foi formulado há dois séculos por Edmund Burke, de que a representação, diferente da delegação, é um cargo público, definido pelas suas responsabilidades. Entregar cada matéria aos eleitores e obedecer a opinião da maioria caso a caso é, precisamente, fugir dessas responsabilidades, esconder-se por trás do consenso e deixar de ser genuinamente responsável pelas suas atitudes.

No contexto moderno, no qual o governo raramente recebe maioria dos votos, maior parte de nós está vivendo sob um governo que não aprova. Nós aceitamos ser governados por leis e decisões tomadas por políticos de quem discordamos e, talvez, de quem desgostemos profundamente. Como isso é possível? Por que democracias não colapsam constantemente à medida em que as pessoas se recusem a serem governadas por aqueles em quem elas nunca votaram? Por que os protestos de eleitores desiludidos gritando “não me representa!” se esvaziam, e por que não houve um êxodo de esquerdistas para o Canadá?

A resposta é que democracias são mantidas unidas por algo mais forte que a política. Há uma “primeira pessoa do plural”, uma lealdade anterior à política, que faz com que vizinhos que votaram em lados opostos se tratem como concidadãos, para quem o governo não é “meu” ou “seu”, mas “nosso”, quer aprovemos ou não. Muitas são as falhas neste sistema de governo, mas uma característica o dá uma vantagem insuperável com relação a todos os outros desenvolvidos até agora, que é tornar aqueles que exercem o poder responsáveis perante aqueles que não votaram neles. Este tipo de responsabilidade só é possível com um “nós”. Apenas se esse “nós” estiver presente as pessoas podem confiar que os políticos cuidarem de seus interesses. Confiança permite às pessoas cooperarem para garantir que o processo legislativo seja reversível quando um erro é cometido; permite a elas aceitar decisões que conflitam com seus desejos individuais e expressam visões acerca da nação e seu futuro que elas não compartilham. E ela permite isto porque elas podem aguardara uma eleição em que possam ter a chance de retificar o dano.

Essa simples observação nos lembra que democracia representativa injeta hesitação, circunspecção e responsabilidade no coração do governo – qualidades que não mexem com as emoções da multidão. O governo representativo deve, por estes motivos, ser infinitamente preferido aos apelos diretos à população, quer sejam por referendos, plebiscitos ou mídias sociais. Mas essa observação também nos lembra que uma política responsável depende de confiança mútua. Nós precisamos confiar que nossos adversários políticos reconheçam que eles têm responsabilidade de representar o povo como um todo, e não simplesmente avançar a agenda de seus apoiadores políticos.

Mas o que acontece quanto a confiança se desintegra? Em particular, o que acontece quando as questões mais caras aos corações das pessoas não são discutidas ou mencionadas por seus representantes, e quando essas questões são precisamente questões de identidade – de “quem somos nós” e “o que nos une”? Aí, parece para mim, é onde chegamos com as democracias ocidentais – nos Estados Unidos assim como na Europa. E eventos recentes de ambos os continentes seriam menos surpreendentes se a mídia e os políticos tivessem acordado mais cedo para o fato de que as democracias ocidentais – todas elas, sem exceção – estão sofrendo de uma crise de identidade. O “nós” que é a fundação da confiança e condição sine qua non do governo representativo tem sido prejudicado não apenas pela economia global e o rápido declínio dos modos de vida familiares, mas também pela migração em massa de povos com outras línguas, outros costumes, outras religiões, outros modos de vida e outras lealdades concorrentes. Pior que isto é o fato de que as pessoas comuns foram proibidas de mencionar isto, proibidas de reclamar publicamente acerca disto, proibidas até de chegar a algum acordo com relação a isto discutindo quais seriam os custos e os benefícios.

É nestas circunstâncias que testemunhamos a ascensão dos populistas. Marine Le Pen na França, Jeremy Corbyn no Reino Unido, Nicola Sturgeon na Escócia e Geert Wilders na Holanda têm muito pouco em comum quando se trata de ideologia. Mas eles compartilham uma característica importante, que é a de que eles representam facções dentro do eleitorado, e não o eleitorado como um todo. Eles procuram o maior apoio possível, mas têm pouca ou nenhuma intenção de comprometerem-se com aqueles que não o oferecem. A política deles é uma política de slogans, faixas e pessoas em manifestações.

Verdadeiros democratas não são assim. Eles não estão no negócio de recrutar pessoas para uma causa e impor seus objetivos pela opinião da maioria. Eles estão no negócio de governar, que significa discussão e compromisso com aqueles que discordam deles. O populista lidera uma multidão com faixas em que se lê “Avante à Vitória!”, e vitória significar sobrepujar a oposição e destruí-la assim como Lenin e Hitler, que trabalharam através do carisma, da histeria e do encantamento massivo para ascender ao topo do poder. Verdadeiros democratas não podem jogar este jogo. Eles visam liderar uma sociedade civil, não uma multidão, e se eles tivessem uma faixa, esta diria “Hesitem!” – que não é, como você concordará, um slogan de vitória.

[*] Sir Roger Scruton. “Politics Needs a First-Person Plural”. The Conservative, Novembro de 2017.

Tradução: dvgurjao

Revisão: Andrey Costa

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