A Nova Mulher Maravilha É Na Verdade Uma História Sobre Jesus

Por M. Hudson [*]

Por sermos mórmons, apenas um entretenimento muito especial pode ser apreciado em nossa casa aos domingos. Mamãe e papai devem concordar que algo seja um “filme de domingo” ou “música de domingo” para poder entrar na nossa lista de entretenimento aprovado.

No entanto, nossos critérios de classificação talvez sejam um pouco diferentes do que você imagina. Meus filhos não assistem só a Charlton Heston no papel de Moisés ou Ben Hur. Eles podem assistir a Feitiço do Tempo, ao episódio Jóia Rara (“The Empath”) da série Jornada nas Estrelas original, ou a Os Agentes do Destino. O critério principal é que o enredo de alguma forma transmita o que é ensinado pelo evangelho de Cristo.

Feitiço do Tempo é uma história de redenção através do amor, Jóia Rara é um conto de amor cristão e o quanto ele custa, Os Agentes do Destino explica as coisas que levam à verdadeira liberdade. Após o fim de cada filme, esperamos que surja naturalmente uma conversa centrada no evangelho a partir daquilo que assistimos.

Você pode imaginar então a alegria dos meus filhos quando declaramos que o novo filme Mulher Maravilha era um filme de domingo. Um deles exclamou: “Nosso primeiro filme de super-heróis do domingo! Oba! ” Assistimos ao filme no dia da estreia esperando apenas mais um filme de heróis da DC Comics, mas animados por haver uma protagonista feminina. Pela metade do filme, no entanto, fiquei de queixo caído e assim permaneci até o final.

Pois o filme Mulher Maravilha conta a história de Cristo, e é óbvio, pelas decisões da diretora Patty Jenkins, que isso foi algo planejado desde o início. É verdade que o filme vem embalado numa mitologia grega artificial, mas não há dúvida sobre a Cristologia aqui. Para garantir que o expectador entenda a mensagem, a cinematografia praticamente joga na cara cenas tais como Diana descendo lentamente ao chão na posição da cruz.

Spoilers a seguir

Já que não não há como desenvolver essa tese sem revelar detalhes do enredo, pare de ler agora se você não viu o filme e não deseja saber o enredo de antemão.

Diana vive entre as amazonas, mas descobrimos mais tarde que ela não é inteiramente uma delas. Sua mãe era uma amazona mas seu pai é uma divindade superior, o próprio Zeus. Diana foi o presente de Zeus para a Humanidade, enviada para derrotar um inimigo em comum, Ares (ou devemos chamá-lo de Lúcifer?), e trazer paz à Terra. Como amazona, ela tem a missão de ser uma ponte para que os humanos obtenham um maior conhecimento, mas como amazona e deusa, ela tem o poder de superar obstáculos impossíveis para os humanos – as maquinações daquele inimigo em comum.

Diana deixa sua terra paradisíaca para encontrar e derrotar Ares, e trazer a paz para a Humanidade. O período histórico é a Primeira Guerra Mundial, e ela está ansiosa para chegar ao front de batalha e lutar. Seus camaradas humanos, incluindo o belo Steve Trevor, acham Diana um pouco “excêntrica”, embora tenham se impressionado com suas habilidades de combate sobrenaturais e sua bravura. Vejam bem, ela é uma salvadora que trouxe uma espada. Uma das coisas que seus companheiros mais estranham é como ela insiste na existência de uma criatura chamada Ares que deseja destruir a Humanidade. Ecoando o sentimento moderno sobre o diabo, eles simplesmente não acreditam que Ares exista.

Mas ele existe, claro. No filme há de fato um Ares, um Lúcifer, disfarçado de político. (Na mosca.) Quando ele finalmente se revela, Ares relata que não pode forçar os homens a fazer o mal, mas que simplesmente sussurra ideias malignas em seus ouvidos. Os humanos fazem todo o resto. O que motiva Ares? Ele acredita que Zeus foi tolo em crer que os humanos poderiam ser bons e, para provar que ele está certo e que Zeus está errado, Ares tenta corromper todos os seres humanos, trazendo sangue e horror à Terra como consequência.

A tentação da figura de Cristo

O diálogo final entre Diana e Ares antes da derrota deste é um ensaio profundo sobre a missão do nosso salvador. Diana ficou profundamente traumatizada ao testemunhar a desumanidade do homem para com o próprio homem, incluindo um ataque com gás venenoso contra civis inocentes. Percebendo isso Ares afirma que, devido à sua depravação, a Humanidade não merece os esforços que Diana empenha em favor dela. Ao contrário, ele argumenta que a missão de Diana de trazer a paz à Terra exige que ela se junte a ele em seu trabalho de facilitar a autodestruição humana.

Diana, que há pouco testemunhara o auto-sacrifício do homem que amava para deter um ataque a gás ainda mais grave, chega a uma importante conclusão – a mesma que Cristo teve. É verdade que a Humanidade não merece a redenção. A Humanidade não merece o sacrifício supremo de Cristo, inocente e divino, no Jardim do Getsêmani e na cruz, pois todos pecaram e tornaram-se decaídos. E muitos de fato nunca escolherão a redenção de maneira voluntária, e a recusarão quando esta lhes for oferecida. Ares nesse ponto fala a verdade, algo semelhante ao hábito de Lúcifer de dizer a verdade parcial para perpetuar mentiras mais efetivas.

Mas Diana conhece uma verdade maior. O homem pode não merecer a redenção, mas eles podem ser redimidos. Essa crença – de o homem pode ser redimido, e de que pelo menos alguns não recusarão esse dom divino – é a verdade maior que motiva os esforços de Diana. Ela viu nosso potencial de nobreza nas ações de Trevor, ações com o mesmo impacto que a depravação que ela também testemunhou.

Diana então revela a maior verdade de todas, uma verdade que Ares é incapaz de conhecer: A chave para a mudança redentora é o amor. Amar a Humanidade e acreditar na possibilidade de sua redenção coloca Diana e Ares irremediavelmente em lados opostos. Esse amor e essa crença dão forças para Diana finalmente derrotar Ares e livrar a Humanidade de seus sussurros nocivos, embora não do mal que reside em seus próprios corações. Sua descida na posição da cruz acontece após sua vitória final sobre o adversário, que (para o interesse desta mórmon) ela identifica como “irmão”.

A evidente cristologia de Mulher Maravilha é ainda mais notável quando consideramos a perversidade de seu criador, William Moulton Marston, bem como o crescente sentimento antirreligioso em nossa sociedade cada vez mais secularizada. Talvez Cristo na forma de uma amazona linda e destemida seja tudo o que a nossa sociedade contemporânea possa absorver no momento. Mas está tudo bem, como Diana e Cristo nos diriam. Cristo ama e acredita em nós apesar de tudo, e lutará do nosso lado até o último homem – assim como Mulher Maravilha.

[*] M. Hudson. “The New ‘Wonder Woman’ Is Really A Story About Jesus”. The Federalist, 05 de Junho de 2017.

Tradução: Rodrigo Carmo

Revisão: Felipe Alves

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