A Ignorância Arrogante dos “Bem-Educados”

Por Joseph Pearce [*]

Em mais de uma ocasião um ensaio meu para The Imaginative Conservative foi inspirado em algum adesivo para carros. Há algum tempo atrás, por exemplo, escrevi “A Sabedoria e a Maldade das Mulheres,” em resposta a um adesivo que declarava: “Mulheres bem comportadas não fazem História.” Recentemente, parado no trânsito, vi este mesmo adesivo no carro à frente, ao lado de um outro que afirmava o seguinte: “O que você chama de Elite Esquerdista, nós chamamos de bem-educados.” A justaposição desses dois adesivos, cuidadosamente selecionados pelo proprietário do carro para me ensinar uma lição, me fez pensar. Posso dizer até que eles me ensinaram uma lição valiosa, embora não a lição que meu vizinho no carro da frente queria me ensinar.

Examinemos em primeiro lugar o segundo adesivo. Claramente criado para ofender os outros motoristas, é extremamente desdenhoso e extremamente arrogante. Nós, os Zés-das-couves, não importa quem sejamos, não tivemos uma educação tão boa quanto o nobre “nós” que dirige o carro à frente. Este pomposo “nós,” que provavelmente é um ela, presume que qualquer um que discorde dela teve uma educação precária, enquanto ela, é claro, foi bem educada. Se nós tivéssemos uma educação tão boa quanto a dela, concordaríamos com ela.

Para sermos justos, ela está baseando sua presunção em dados que mostram que aqueles que são “bem-educados” tendem a votar nos democratas, enquanto que aqueles que são menos “educados” tendem a votar nos republicanos. Ela vota democrata porque é bem-educada. Nós, que se presume sermos republicanos (porque se presume que sejamos estúpidos), nos queixamos de que aqueles que são mais instruídos do que nós (e portanto melhores que nós) fazem parte de uma elite.

O problema é que a educação que ela recebeu não é tão boa como ela pensa. Se foi educada em nosso sistema secular, ela não terá aprendido absolutamente nada sobre teologia, presumindo que, se existe um Deus, ele, ou provavelmente ela, concorda conosco. Se ele ou ela não concorda conosco, ele ou ela pode ir para o inferno. E, é claro, podemos mandar Deus para o inferno porque ele ou ela é feito à nossa imagem (nós não somos feitos à imagem dele/dela) e podemos fazer o que quisermos com ele ou ela. Em suma, podemos tratar Deus com a mesma arrogância e impertinência com que tratamos o nosso vizinho: “O que Deus chama de pecado, nós chamamos ser bem-educado.”

Se foi educada em nosso sistema secular, ela nada vai saber de filosofia, ou, se isso acontecer, vai acreditar que não havia filosofia digna de ser levada a sério antes de René Descartes. Ela não sabe nada da filosofia dos gregos, de Sócrates, Platão e Aristóteles, e menos ainda dos grandes filósofos cristãos, como Agostinho ou Tomás de Aquino. Na medida em que ela sequer ouviu falar dessas pessoas, ela vai presumir que eles não sabiam do que estavam falando: “O que os antigos filósofos chamam de erro, nós chamamos de ser bem-educado.”

Se ela foi educada em nosso sistema secular, não vai saber nada de História, ou, se souber algo, será somente a partir de sua própria perspectiva de Século XXI, ou perspectiva de Século XXI de quem a ensinou. História não é aprender com as pessoas do passado, com seus triunfos e seus erros, mas sim erigir-se juiz da estupidez dos nossos antepassados, que se presume não serem nada esclarecidos, ou pelo menos não tão esclarecidos como ela mesmo é, ou seus professores. “O que as pessoas do passado acreditam ser imoral, chamamos de ser bem-educado.”

Se foi educada em nosso sistema secular, ela não vai conhecer nada da grande literatura, ou, se conhecer, a terá interpretado mal, a partir da perspectiva de seu próprio orgulho e preconceitos do Século XXI, ou da perspectiva orgulhosa e preconceituosa dos que a ensinaram. Não passaria pela sua cabeça tentar ler os grandes autores do passado através dos olhos deles porque, já que viveram no passado, esses autores não têm a sensatez e a sensibilidade que ela tem. “O que Jane Austen chama de orgulho e preconceito, chamamos de ser bem-educado.”

Uma vez entendido o que ser “bem-educado” na verdade significa na deplorável época analfabeta em que nos encontramos, não ficamos surpresos em encontrar esses dois adesivos de carro lado a lado. Aquele que foi “educado” dessa forma obviamente vai acreditar que “mulheres bem comportadas não fazem História.” O que nós, os ignorantes, chamamos de mau comportamento, a elite esquerdista chama de boa educação.

Ser “bem-educado” é ser um ignorante em teologia, filosofia, História e nos grandes livros da Civilização. É acreditar que não temos nada a aprender com o Grande Diálogo que tem animado o discurso humano por três milênios. É tratar o motorista do carro ao lado com um desprezo arrogante e desdenhoso, presumindo que ele é estúpido porque não é tão “bem-educado” como nós. É encarar as maiores mentes e os escritores mais brilhantes da História com desprezo porque não são tão “bem-educados” como nós. Em suma, ser “bem-educado” não é simplesmente ser ignorante, é ser arrogante na ignorância.

[*] Joseph Pearce. “The Arrogant Ignorance of the ‘Well-Educated’.” The Imaginative Conservative, 28 de Março de 2016.

Tradução: Felipe Alves

Revisão: Rodrigo Carmo

2 comentários

  • dudu

    Texto excelente! A clareza nos fatos não deixa dúvida sobre a arrogância dos bem nascidos do dinheiro alheio…

  • Marcelo Correa da Silva Marcelo Correa

    Se pensarmos nas três instâncias do mundo material, ignorância, paixão e bondade, verdade védica, transcendência da alma ou fenomenologia, o que interessa a gregos e troianos, materialistas e espiritualistas, é o poder de discernir o que ignorar, quando agir apaixonadamente e a quem se deve devotar qualquer generosidade, exceto a estupidez. Os sábios desejam e sucumbem às armadilhas do poder e à sedução das ilusões. Os apaixonados ardem no fogo devorador das vontades mortas. Os generosos, por sua vez, acabam vítimas da estupidez à semelhança dos equivocados sinceros e dos ignorantes ilustrados.

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