A Grande Ciência está quebrada

Por Pascal-Emmanuel Gobry [*]

A ciência está quebrada.

cienciaEsse é o nome da tese de um artigo [de leitura obrigatória], publicado na revista First Things, no qual William A. Wilson mostra evidências de que muitos dos artigos científicos publicados são falsos. Mas essa ainda não é a pior parte.

Defensores da existência de paradigma na pesquisa científica normalmente declaram [de forma complacente] que, ao passo que algumas das conclusões publicadas são, indubitavelmente, falsas, o método científico possui “mecanismos de autocorreção” que garantem que, eventualmente, a verdade prevaleça. Infelizmente, para todos nós, Wilson traz um argumento convincente de que esses mecanismos estão “quebrados”.

Para começar, existe uma “crise de replicabilidade” na ciência. Esse argumento é particularmente verdadeiro no campo da Psicologia experimental, no qual muitos estudos prestigiosos simplesmente não podem ser repetidos. Mas isso não acontece só na Psicologia. Em 2011, a companhia farmacêutica Bayer examinou 67 descobertas de grande sucesso em revistas de prestigio e descobriu que três quartos das descobertas não estavam corretos. Outro estudo, feito com base em pesquisas sobre câncer, determinou que apenas 11% do material pré-clínico pesquisado pode ser reproduzido. Até mesmo sobre a Física, supostamente a mais difícil e mais confiável das ciências, Wilson ressalta: “dois dos resultados de Física mais alardeados dos últimos anos – a descoberta tanto da inflação cósmica quanto das ondas gravitacionais no experimento BICEP2 na Antártida e a suposta descoberta de neutrinos superluminais na fronteira suíço-italiana – reconheceram seus erros, com muito menos alarde do que quando os publicaram pela primeira vez.”

O que explica isso? Em alguns casos, erro humano. Grande parte do mundo das pesquisas explodiu em raiva e zombaria quando foi descoberto que um estudo altamente popular, feito pelos economistas Ken Rogoff e Carmen Reinhardt, ligando a dívida pública alta ao crescimento reduzido, resultou de um erro no Excel. Steven Levitt, consagrado como autor do livro Freaknomics, construiu sua carreira inteira por meio de um estudo no qual ele argumentava que o aborto levaria a uma diminuição na taxa de crimes nos próximos 20 anos, pois os bebês abortados seriam, desproporcionalmente, futuros criminosos. No entanto, dois economistas entraram no processo meticuloso de análise estatística dos dados de Levitt – e descobriram um erro elementar de aritmética.

É tudo, pois, uma fraude absoluta. Em uma pesquisa em 2011, dentre 2000 pesquisadores de Psicologia, mais da metade admitiu ter selecionado os resultados [dos experimentos] de modo a favorecer as teses que eles gostariam de demonstrar. A pesquisa também concluiu que cerca de 10% dos pesquisadores em Psicologia já fizeram algum tipo de falsificação de dados, e mais da metade já teve algum comportamento menos descarado, mas, ainda assim, fraudulento, tal como declarar, em relatórios, que um resultado era estatisticamente significante quando não o era, ou decidir entre duas técnicas de análise de dados diferentes depois de olhar para os resultados de cada um e escolher o mais favorável.

Logo, há de tudo entre o erro humano e a fraude descarada: arredondamento de números, de maneira que se adequem melhor à tese; checagem mais precária dos resultados, quando esses são favoráveis, e assim por diante.

Entretanto os mecanismos independentes de checagem e revisão paritária não deveriam conseguir separar eventualmente o “joio” do “trigo”?

Bem, talvez não. Existe uma boa razão para acreditar que o exato oposto esteja acontecendo.

O processo de revisão paritária não funciona. A maioria dos observadores da ciência dá gargalhadas do notório “Caso Sokal”, em que um físico chamado Alan Sokal apresentou um artigo com linguagem incompreensível para uma revista obscura de estudos sociais, que o aceitou. Menos famoso é um trabalho similar do conceituadíssimo British Medical Journal, a que foi submetido um artigo com oito grandes erros. Nem um único dos 221 cientistas que revisaram o artigo acharam os erros nele contidos, e apenas 30 por cento dos revisores recomendaram que o artigo fosse rejeitado. Surpreendentemente, os revisores que foram avisados de que estavam [participando] de um experimento e de que o artigo poderia ter problemas não encontraram um número maior de falhas do que os que não tinham sido avisados.

Isso é sério. No estudo do câncer pré-clínico mencionado acima, os autores observam que “alguns estudos pré-clínicos não reproduzíveis geraram todo um campo [de investigação], com centenas de publicações secundárias, que expandiram os elementos da observação original, mas que, na verdade, não confirmaram nem negaram sua base fundamental”.

Isso adentra a questão da sociologia da ciência. É um chavão familiar que “a ciência avança um funeral de cada vez.” Os grandes pioneiros científicos foram rebeldes e excêntricos. A maioria dos trabalhos científicos mais valiosos é feita por jovens. Os cientistas mais velhos são mais propensos a investir, tanto na perspectiva emocional quanto na de carreira e prestígio, no paradigma reinante, embora o espírito da ciência seja o de desafiar os paradigmas reinantes.

Por que, então, o nosso processo científico é tão estruturado de forma a recompensar o velho e o prestigioso? Órgãos de financiamento governamental e de revisão paritária são inevitavelmente acompanhados pelos mais consagrados (leia-se: defasados) profissionais da área. O processo de posse garante que, a fim de promover suas carreiras, os cientistas mais jovens, em um determinado departamento, prostrem-se diante das teorias dos mais velhos, ou corram um risco profissional significativo. A revisão paritária pode não ser boa na manutenção de estudos falhos de grandes periódicos, mas pode ser mortalmente eficiente em silenciar visões heréticas.

Tudo isso sugere que o sistema atual não está apenas mostrando rachaduras, mas está seriamente danificado, e precisando de uma grande reforma. Há motivos muito fortes para acreditar que (1) muita pesquisa científica publicada hoje seja falsa – não há nenhuma boa maneira de separar o joio do trigo – e, principalmente, que (2) a forma como o sistema é projetado garante que isso continuará acontecendo.

Como Wilson escreve:

Ainda que, de fato, ocorra uma auto-correção e as teorias passem a mover-se rigorosamente, ao longo de um ciclo de vida, da menor à maior precisão, o que acontecerá se o dilúvio incessante de novos resultados, falsos em sua maioria, ocorrer mais rapidamente? Rápido demais para que os esclerosados e comprometidos mecanismos utilizados pela ciência para discernir a verdade pudessem operar? O resultado poderia ser um corpo crescente de teorias verdadeiras completamente sufocadas por um emaranhado, cada vez maior, de teorias infundadas, de tal forma que a proporção de crenças científicas verdadeiras diminuiria, ainda que o número absoluto continuasse a subir. Na Biblioteca de Babel de Borges existiam todos os livros verdadeiros que já foram escritos, mas isso era inútil, porque ela também possuía cada livro falso, e tanto os verdadeiros quanto os falsos estavam perdidos dentro de um oceano de disparates.

Este é um grande problema, um que não pode ser resolvido em uma coluna [de revista ou jornal]. Mas o primeiro passo é admitir que você tem um problema.

A ciência, um empreendimento para os inconformistas, tornou-se uma empresa para carreiristas. É hora de puxar o tapete dos carreiristas da ciência. Em vez de esperar até que a juventude de alguém se perca para conceder-lhe liberdade acadêmica e prestígio, que sejam abolidos os doutorados e se dê concessão de bolsas de estudo para os melhores [cientistas] de 22 anos de idade, dando-lhes os maiores orçamentos e as maiores liberdades em seus primeiros cinco ou 10 anos de carreira. Então, com apenas algumas exceções, deslocá-los da pesquisa para o ensino ou alguma outra atividade inofensiva. Só, então, podemos começar a corrigir a Grande Ciência.

[*] Pascal-Emmanuel Gobry. “Big Science is broken”. The Week, 18 de Abril de 2016.

Tradução: Duanne Scremin
Revisão: Rodrigo Carmo
Revisão Gramatical: Gleice Queiroz

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