A esquerda francesa perde a cabeça por causa de jogo de Robespierre

Por John Lichfield [*]

Mais de 200 anos após ter sua cabeça decepada, Maximillen François Marie Isidore de Robespierre ainda causa problema.

O último jogo da série Assassin’s Creed apresenta o líder da Revolução Francesa como um psicopata sedento por sangue. Ele foi, afinal, direta ou indiretamente responsável por mais de 40.000 execuções em 11 meses durante o “Terror” de 1793-1794.

Uma deixa para a fúria apoplética da extrema esquerda, que venera Robespierre como um “homem do povo” e um “pai da democracia”.

Esta é uma propaganda contra o povo”, diz o Primeiro Ministro e ex-candidato à presidência, Jean-Luc Melenchon. “O povo é [mostrado como] bárbaro, como selvagens sanguinários. Um homem que foi nosso libertador durante um período da Revolução é caracterizado como um monstro”. Melenchon disse que o jogo Assassin’s Creed Unity, lançado na semana passada pela companhia francesa, Ubisoft, é parte de uma conspiração capitalista. “Eles estão nos insultando para destruir o que nos mantém unidos como povo francês”, ele disse. “Isto é uma reescrita da história para glorificar aqueles que perderam e para desacreditar a República, única e indivisível”.

Os produtores do jogo admitiram que alguns eventos foram exagerados e liberdades foram tomadas com alguns fatos. Os revolucionários são mostrados carregando a bandeira tricolor da França em 1792, antes de ser adotada. Eles cantam a “Marseillaise” antes dessa se tornar o hino nacional.

Antoine Vimal du Monteil, o produtor do jogo, disse: “Assassin’s Creed Unity é um jogo para o público em geral. Não é uma aula de história”.

Outro político de esquerda — e historiador — discute, no entanto, que muitos jovens no entanto aprendem história mais pelos jogos do que pelos livros ou filmes. Alexis Corbière, o secretário geral de La Partie de la Gauche (o partido da esquerda), diz que o jogo “alega erroneamente que houveram centenas de morte [no Terror] e que ruas inteiras estavam encharcadas de sangue”. Ele convocou um “debate público” sobre como a história é interpretada para os jovens.

Milhares de pessoas morreram sim no Terror — não apenas os aristocratas, mas muitos revolucionários e pessoas comuns suspeitas de deslealdade, incluído o próprio Robespierre. O argumento de que o jogo tem “centenas de milhares” de vítimas é excessivo.

Políticos de direita e da esquerda moderada tem zombado da raiva de Melenchon e da extrema esquerda. Um comentarista conservador sugeriu que era como começar um debate político sobre como a América é representada em Batman Begins. Outros tem sugerido que a raiva de Melenchon teria sido melhor dirigida contra a violência da série Assassin’s Creed.

O argumento chama atenção, no entanto, para uma persistente ambiguidade nas atitudes francesas relacionadas a Revolução de 1789-1794 e do Império Napoleônico. Muito da estrutura política e lei da França moderna remetem a este período. Crianças francesas são ensinadas que a Revolução Francesa — não a Declaração Americana de Independência e nem a Revolução Industrial na Grã-Bretanha — foi o verdadeiro começo dos tempos modernos. Como, então, lidar com um homem como Robespierre, um advogado que começou se opondo à pena de morte e então mandou centenas para guilhotina?

Os apologistas de Robespierre sugerem que ele foi erroneamente culpado pelo Terror e que isso é mais uma causa de histeria coletiva do que o trabalho de um homem só. Seus discursos o caracterizam como um monstruoso presunçoso e um pretensioso monstro. Ele argumentou que mesmo aquelas pessoas que eram vagamente suspeitas de querer desacelerar a Revolução — mesmo que não tivessem falado ou pensado nisso — deveriam ser mortas pelo “bem público”. O novo jogo de “Assassin’s Creed” o critica ainda mais. Ele é apresentado como um psicopata e (resquícios de O Código Da Vinci) um homem que queria restaurar o antigo poder dos Cavaleiros Templários. Seu personagem diz em um momento: “Eu detesto este mundo podre que não é nada mais que uma carcaça na qual a humanidade se alimenta como vermes… Eu quero matar quantas pessoas for possível… Minha cruzada genocida começa aqui e agora”.

Isto é cruel — e indiscutivelmente menos assustador que a arrepiante sutileza do real Robespierre. Os seus argumentos para o absolutismo dos direitos das pessoas pressagiou o Stalinismo ou o Maoísmo. “Se a virtude é ser a primavera de um governo popular em tempos de paz, a primavera de um governo durante a revolução é a virtude combinada com o terror: virtude, sem o terror é destrutiva; terror, sem a virtude é impotente. Terror é… então uma emanação da virtude… O governo é a revolução do despotismo da liberdade contra a tirania”.

[*] John Lichfield. “French left loses its head over Robespierre game”. The Independent, 17 de Novembro de 2014.

Tradução: Giovanni Russo

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