A Escola Polonesa de Cinema

Por Roberto Galea [*]

Na década imediatamente posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa ainda buscava se recuperar política e economicamente. Os filmes feitos durante este período eram retratos severos e ásperos do vazio e desespero da sociedade (como no Neorrealismo italiano) ou da frivolidade da juventude (a Nouvelle Vague francesa).

Na Polônia a situação não era diferente. Em meados da década de 1950 o regime comunista na Polônia havia perdido muito do foco ideológico. Em sua maior parte, o cinema polonês da época conseguiu evitar a rigorosa censura e contar histórias de heróis populares tanto durante quanto depois da guerra.

O resultado foi um dos períodos mais importantes do cinema do país, período este conhecido agora como a “Escola Polonesa de Cinema” — um nome informal para os filmes realizados entre 1956 e 1965. Entre os cineastas mais proeminentes do período estão: Andrzej Wajda, Wojciech Jerzy Has, Kazimierz Kutz, Janusz Morgenstern, Tadeusz Konwicki e Roman Polanski (que atuou mais como ator do que como diretor durante esse período). Muitos haviam passado pela guerra e ainda tinham vívidas lembranças dos seus estragos. Portanto, não é surpresa que o tema da guerra fosse predominante nos filmes da Escola.

Em 1957, Kanal, de Andrzej Wajda, ganhou o Prêmio Especial do Júri no festival de cinema de Cannes. A história começa em Mokotów, um distrito de Varsóvia, em meados de 1944, o 56.º dia do Levante de Varsóvia. A insurreição seria derrotada em breve, após sessenta e três dias de luta. Depois de um destacamento dizimado ressurgente fazer uma tentativa fracassada de se afastar do cerco das tropas alemãs, Zadra, o comandante, ordena que todos passem pelas tubulações de esgoto para o centro da cidade, onde a luta ainda está em andamento. O grupo se move através do sistema subterrâneo escuro e sinuoso semi-repleto de água e excremento, enquanto os alemães guardam os poços para lançar granadas.

O filme, o segundo de uma trilogia de guerra realizada por Wajda, ainda é considerado um dos melhores do diretor: Tom Huddleston escreveu no Time Out New York,

No papel, o filme soa como um narrativa difícil, e de certa forma o é. Wajda deixa claro desde o início qual será o destino desses soldados, uma vez que uma narração lúgubre informa que: “Estes são os trágicos heróis. Observe-os de perto nas horas restantes de suas vidas”. Mas o diretor nunca se contenta em simplesmente detalhar o trágico declínio de um grupo de feridos sem rosto. Ele nos obriga a nos importar com esses personagens, esboçando suas personalidades em traços sutis e efetivos: o soturno e desesperado capitão, o jovem apaixonado, o artista desajustado.

O termo “Escola Polonesa de Cinema” foi cunhado em 1954 pelo crítico Aleksander Jackiewicz, que expressou sua esperança de que surgisse uma “escola de cinema polonesa digna da grande tradição de nossa arte”. (Prawo do eksperymentu, 1954)

A Escola produziu outros filmes que tratavam de tópicos que, até a morte de Stalin, em 1953, eram tabu.

Certos eventos políticos deram origem à Escola. A morte do primeiro ministro stalinista Bolesław Bierut em 1956 trouxe um breve período de desestalização. Em junho desse ano, no entanto, houve um levante em Poznań. O ex-Primeiro Ministro Stanisław Gomułka voltaria ao poder em outubro daquele ano.

A explosão da energia artística e o surgimento da nova onda de cineastas na Polônia depois de 1956 são geralmente descritos como o fenômeno da Escola Polonesa – escreveu Marek Haltof em “Polish National Cinema”. As mudanças políticas introduzidas após o Outubro Polaco de 1956 permitiram que jovens cineastas se afastassem do Realismo Socialista e, em grande parte, construíssem seus filmes em torno de experiências próprias.

Apesar dos tempos tensos em que a escola operava, os filmes não eram todos intelectualizados. “O período da Escola Polonesa é caracterizado por diferentes temas, poéticas incompatíveis, ousadia em termos de estilo e ideologia, bem como por um puro valor de entretenimento”, escreveu Haltof, referindo-se a filmes que vão desde temas românticos, como Canal e Popiół i diament / Cinzas e diamantes (1958) de Wajda, para épicos históricos como Knights of the Teutonic Order (1960, Aleksander Ford) e comédias como Ewa chce spac / Eva quer dormir (1958, Tadeusz Chmielewski).

Embora muitos críticos concordem hoje que a Escola Polonesa tenha sido uma parte central da indústria do país entre os meados da década de 1950 e início da década de 1960, não há concordância de que tal grupo tenha de fato existido. Philippe Hadiquet comentou uma entrevista concedida ao Le Monde em 1963 por Kazimierz Kutz, que “o cinema polonês é descentralizado” e que “não há escola”.

O conceito de “escola” também não foi levantado nos artigos seminais de Bolesław Michałek e Jerzy Płażewski na época publicados em Sight and Sound (1960) e Cahiers du Cinema (1958) respectivamente.

No entanto, é óbvio que as atividades da escola gravitavam em torno da Escola de Cinema de Łódź, que na época era uma das principais instituições da Europa.

A eventual dissolução da escola pode ter se devido em parte pelo desencanto do grupo com a idéia.

Na palavra de Andrzej Wajda, “O verdadeiro ponto fraco da Escola Polonesa da década de 1950, e a razão do seu inevitável desaparecimento, foi que seus filmes apresentavam heróis que eram mais estúpidos do que a História. Na minha opinião, é errado ficar do lado da História em vez de do lado do herói”.

Filmografia selecionada:

Kanał / Canal (1956) dir. Andrzej Wajda

Człowiek na torze / Man on the tracks (1956) dir. Andrzej Munk

Cień / Shadow (1956) dir. Jerzy Kawalerowicz

Eroica (1957) dir. Andrzej Munk

Prawdziwy koniec wielkiej wojny (1957) dir. Jerzy Kawalerowicz

Popiół i diament / Ashes and diamonds (1958) dir. Andrzej Wajda

Ostatni dzień lata / Last days of Summer (1958) dir. Tadeusz Konwicki

Pożegnania (1958) dir. Wojciech Jerzy Has

Baza ludzi umarłych (1958) dir. Czesław Petelski

Ewa chce spac / Ewa wants to Sleep (1958) dir. Tadeusz Chmielewski

Pociąg / Night train (1959) dir. Jerzy Kawalerowicz

Zezowate szczęście / Bad luck (1960) dir. Andrzej Munk

Krzyżacy / The Teutonic Knights (1960) dir. Aleksander Ford

Nóż w wodzie / Knife in the water (1961) dir. Roman Polański

Jak być kochaną (1962) dir. Wojciech Jerzy Has

Pasażerka / The passenger (1963) dir. Andrzej Munk

Salto (1965) dir. Tadeusz Konwicki

[*] Roberto Galea. “The Polish Film School”. Culture, Agosto de 2012.

Tradução: Felipe Alves

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