A cultura francesa tem futuro?

Esta entrevista com Pierre Manent, ex-diretor de estudos na École des Hautes Études em Ciências Sociais, em Paris, foi conduzida pelo jornal Il Foglio, após o assassinato do Padre Jacques Hamel, pelo ISIS.

 

IL FOLGIO

O que você sente e pensa sobre o ataque recente a uma Igreja na França? Desde a Segunda Guerra Mundial, nenhum padre morreu In odium fidei (devido ao ódio à fé).

PIERRE MANENT

Imagine esta cena: uma missa no meio da semana, uma igreja quase vazia, dois fiéis, três freiras e um sacerdote muito velho, com o rosto belo e manso que foi sacrificado ao pé do altar no qual havia acabado de fazer a celebração em memória ao sacrifício de Cristo. Essa cena de cortar o coração coloca uma luz sobre o estado do Cristianismo na Europa. A Igreja Católica vive do zelo e da fé de poucos, jovens e velhos. Ela é objeto de um ódio de duas faces: o ódio frio e silencioso, o desprezo da classe que palpita e escreve; e o ódio assassino dos fanáticos Muçulmanos. Os franceses, como um todo, não sabem o que fazer com a Igreja, nem o que pensar ou dizer sobre ela. O Presidente da República se apressou a expressar sua simpatia pelos “Católicos”, e então mudou imediatamente de assunto, visto que não sabia o que dizer sobre os Católicos ou sobre a Igreja Católica. Somente o prefeito da pequena cidade de trabalhadores, um comunista, soube falar sobre o ‘nosso sacerdote’.

IL FOGLIO

A França parece exausta… Quais são os erros da França, especialmente aqueles da elite da mídia e dos intelectuais, e qual é a natureza desse mal-estar?

PIERRE MANENT

Os franceses estão exaustos, mas antes disso, estão todos perplexos, perdidos. As coisas não deveriam acontecer assim… Nós havíamos, supostamente, entrado no estágio final da democracia onde reinariam os direitos humanos, tendo mais direitos observados com rigor cada vez maior. Nós deixamos para trás a época das nações como bem deixamos a das religiões, e daqui em diante seríamos indivíduos livres movendo-nos pela superfície do planeta sem atritos… E agora nós vemos que as afiliações religiosas e outras ligações coletivas não apenas sobreviverão, mas devem retornar com certa intensidade. Todos podem ver e sentir isso, mas como tal fenômeno pode ser expressado quando a única linguagem permitida é a dos direitos individuais? Nós nos tornamos absolutamente incapazes de enxergar o que está bem à frente dos nossos olhos. Enquanto isso, a classe governante, que não é uma classe política, mas ideológica, e controla não o que deve ser feito, mas o que deve ser dito, continua falando ilimitadamente sobre “valores”: “os valores da República”, “os valores da democracia”, “os valores da Europa”. Essa classe perdeu muito crédito perante os olhos do povo, mas ocupa todas as posições de responsabilidade institucional, principalmente na mídia, e em nenhum lugar encontra-se grupos ou indivíduos que dão a impressão de entender o que está aontecendo, ou de se levantar contra isso. Não temos mais confiança nos nossos líderes do que em nós mesmos. Dizer isso não é nem uma desculpa, nem consolação, mas os erros dos franceses são os mesmos que os dos europeus em geral.

IL FOGLIO

Você acha que, de alguma maneira, a Europa chamou para si esta catástrofe?

PIERRE MANENT

Nós convidamos a catástrofe ao ceder à uma representação ideológica do mundo como a que adotamos atualmente. Nós convidamos a catástrofe ao acreditar com sinceridade que a afiliação religiosa de um cidadão não tem efeitos ou consequências políticas. Nós convidamos a catástrofe ao excluir do debate legal sobre a possível adesão da Turquia à União Européia o fato de que a Turquia é um país majoritáriamente islâmico. Nós convidamos a catástrofe quando confundimos a obrigação de resgatar uma pessoa que está se afogando com o direito dessa mesma pessoa de tornar-se cidadã do nosso país. Nós convidamos a catástrofe quando, em nome da caridade ou da misericórdia, exigimos que antigas nações Cristãs abram suas fronteiras à todos que queiram entrar.

IL FOGLIO

A cultura francesa tem futuro? O Cristianismo, preso entre o Islam e o secularismo militante, tem futuro na França? A civilização Ocidental continuará a sustenar a Europa, ou estamos testemunhando um abandono vagoroso dos ideais Ocidentais?

PIERRE MANENT

Nós não sabemos quando tocará a trombeta. Não posso te responder em nome de alguma ‘experiência’; posso apenas responder em nome da esperança. A esperança Cristã é baseada na fé. Eu acredito que, no meio da desintegração da civilização Ocidental, que já começou, o caráter sobrenatural da Igreja se tornará, paradoxalmente, cada vez mais visível. O ódio do mundo se voltará à ela cada vez mais claramente. Mais claramente do que nunca, o destino de todos dependerá do “pequeno rebanho” de Cristãos.

Pierre Manentfoi diretor de estudos na L’École des Hautes Études em Sciences Sociales, Paris, até aposentar-se em 2014.

 

Tradução: Laan carvalho
Revisão: Jonatas

Artigo original encontrado em: http://www.firstthings.com/web-exclusives/2016/08/does-french-culture-have-a-future

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