A Beleza e a Vitalidade da Imaginação Literária Russa

Por Glenn Davis [*]

Os leitores do The Imaginative Conservative conhecem bem a frase “a beleza irá salvar o mundo”. Aleksandr Solzhenitsyn tomou emprestada a frase de Fiódor Dostoiévski para definir o tema de sua palestra na ocasião do Prêmio Nobel em 1970. O escritor conservador inglês Roger Scruton escreveu vastamente sobre como a estética — e a beleza em particular — aumenta a nossa visão da humanidade, nos ajuda a encontrar significado em nossas vidas e proporciona conhecimento sobre os valores intrínsecos ao nosso mundo. Gregory Wolfe também usou a frase no título de sua obra recente, “A Beleza Salvará o Mundo: Redescobrindo o homem numa era ideológica, que trata da importância de uma compreensão estética para a manutenção de uma cultura civilizada.[1] A abordagem de Wolfe é especialmente apropriada para os leitores deste site, já que ele trata do declínio de uma apreciação estética no movimento conservador nos últimos trinta anos, o que resultou em um conservadorismo politizado, sem visão e sem raízes culturais profundas.

Estudante de longa data da cultura russa que sou, acho instigante a importância que conservadores imaginativos² têm dado para um conceito (“a beleza irá salvar o mundo”) articulado por Fiódor Dostoiévski cento e cinquenta anos atrás em referência às suas próprias batalhas contra um poderoso movimento ideológico empenhado em politizar a cultura russa do século XIX.³  As diferentes escolas estéticas rivais que marcaram a segunda metade daquele século acabaram provocando, na década de 1920, a devastação da literatura imaginativa na Rússia. As raízes desse pesadelo de disputas estéticas foram obscurecidas pelas turbulências políticas das décadas de 1850 e 1860, e Dostoiévski escreveu incansavelmente para defender a arte russa, dar vida à imaginação russa e nutrir a alma humana. É um período da história que, acredito eu, tendo em vista os argumentos de Wolfe e de outros, deve suscitar interesse e terreno fértil para reflexão entre os conservadores imaginativos.

Naquela época, a batalha pela imaginação russa e pela literatura era dominada por dois movimentos literários: escritores que apoiavam e promoviam uma abordagem estética e escritores que preferiam uma abordagem social e política, baseada em pensamentos utilitários e materialistas. Dostoiévski esteve entre os grandes representantes do movimento estético, pois ele concebia a literatura imaginativa como o melhor método para examinar as profundezas da alma humana. Os radicais, por outro lado, liderados por Nikolai Tchernichevski , Nikolai Dobroliúbov, e Dmitry Pisarev, que em grande parte negavam a existência da alma e afirmavam que a arte fosse inferior à realidade, focavam-se especialmente em escritos filosóficos assim como críticas literárias e sociais como armas na luta por transformação política e social. O principal assunto da época, que chamava a atenção das elites culturais e caracterizava o ambiente intelectual, era, naturalmente, a questão da escravidão. Para os russos do século XIX, assim como para os americanos, a questão da escravidão introduzia na literatura russa poderosas – e, por vezes, brilhantes – críticas políticas, sociais e literárias. Mas, como os Estados Unidos passaram por uma purificação catártica dessa questão através da tragédia nacional da guerra civil, a emancipação dos servos na Rússia, em 1861, parecia só agravar a situação política.[2] Por causa da natureza historicamente opressiva do sistema russo, as questões políticas não podiam ser tratadas abertamente em praça pública; diferentemente, elas tinham que ser tratadas de maneira indireta, frequentemente através da literatura. Consequentemente, a literatura e a crítica literária tornaram-se o espaço no qual as grandes questões políticas e sociais da época eram debatidas. A cultura favorecia uma literatura politizada e, como o radical Pisarev exprimiu, “a estética [era] meu pesadelo”.

Os expoentes entre os críticos radicais eram Pisarev e Tchernichevski. Eles defendiam uma literatura politizada e eram altamente céticos das artes imaginativas. Tchernichevski argumentava que “a arte é inferior à realidade”, e que uma visão de mundo materialista e utilitarista deveria informar não somente as normas sociais e políticas, mas também os trabalhos literários. O Pisarev ia além em sua luta contra a beleza:

“Deve ser notado, em louvor da natureza humana em geral e da mente humana em particular, que até o momento, aparentemente, quase ninguém deu a sua vida por algo que considerasse belo, ao passo que, por outro lado, há um infinito número de pessoas que deram suas vidas por aquilo que consideraram verdadeiro e socialmente útil… A arte nunca teve e nunca poderá ter nenhum mártir.”

Essa visão de mundo radical foi uma força poderosa e expressiva na segunda metade do século XIX, influenciando muitos membros da elite política e cultural. (Essa força acabou crescendo e se tornando verdadeiramente nefasta no momento em que Lênin descobriu a obra proto-bolchevique “O Que Fazer?” de Tchernichevski — considerada péssima pela crítica — mas que acabou se tornando seu romance favorito. Na década de 1930, esse romance já era considerado um dos modelos para o realismo socialista soviético.) Esses radicais, criando um grito de guerra baseado no personagem niilista fictício Ievguêni Bazárov (do livro Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev), afirmavam que “um bom químico é vinte vezes mais útil que qualquer poeta”. Assim, os ideais transcendentais comunicados pela arte e a literatura apavoravam os críticos radicais porque ideais transcendentais eram inerentemente independentes do método científico. Como afirmou Charles Moser, os radicais fomentavam uma teoria monista que pretendia unificar todos os aspectos da realidade e rejeitavam ou denunciavam qualquer abordagem do conhecimento, filosófica ou teológica, que tivesse um caráter dualista. É nesse ambiente intelectual que Fiódor Dostoiévski empregou sua genialidade para a imaginação. Nós sabemos de seus escritos e de seus extensos diários que ele escreveu muitas de suas obras como réplicas ao didatismo utilitarista o qual Tchernichevski e seus seguidores na esquerda estavam empenhados em propagar na cultura literária da época.

Konstantin Mucholsky

Assim como os radicais sacrificavam a qualidade estética e limitavam sua crítica à ideologia política e social em prol de sua causa, os estetas promoviam os ideais transcendentais. Dostoiévski, em particular, com sua mente extremamente inteligente e filosófica, rejeitava propositadamente a filosofia discursiva da arte, nutrindo suas obras a partir do uso imaginativo da linguagem teológica, psicológica e poética. Como explica Robert Louis Jackson, toda a vida de Dostoiévski foi uma “busca pela forma”, afinal ele acreditava que a vida em si era uma obra de arte e que somente a arte poderia oferecer a verdade suprema sobre a natureza e a experiência humanas. Assim, a maneira como Dostoiévski abordava a vida era uma afronta aos críticos radicais, que declaravam sem pudor que a arte era deficiente e subserviente à realidade.

É muito claro para os leitores de seus romances e cadernos que Dostoiévski valorizava a arte como uma forma superior de conhecimento. A sua declaração de que “a arte irá salvar o mundo” pode ser encontrada nos rascunhos do seu romance O Idiota, mas devemos lembrar que essa frase não vem acompanhada, sem explicação, de um segundo rabisco que diz “dois tipos de beleza”. A partir desses rascunhos descobrimos também que Dostoiévski acreditava que suas tentativas de retratar a beleza teriam sido infrutíferas e fracassado terrivelmente. Sobre O Idiota, ele escreveu: “Faz muito tempo que uma certa ideia vem me afligindo, mas eu tenho receio de fazer um romance sobre isso porque o assunto é muito difícil e eu não estou preparado, apesar de ser uma ideia tentadora que eu adoro. A ideia: retratar toda a beleza individual. Não há, na minha opinião, nada mais difícil que isso, especialmente em nossa época”. Konstantin Mochulsky, um dos melhores leitores de Dostoiévski, interpretou essas notas da seguinte maneira:

A santidade não é um tema literário. Para criar a imagem de um santo, o sujeito tem que ser um santo ele mesmo. A santidade é um milagre; o escritor não pode ser um criador de milagres. Somente Cristo é santo, mas um romance sobre Cristo é impossível. Dostoiévski encarava o problema da arte religiosa que atormentou o pobre Gogol[3] até sua morte.

Fica claro nos escritos de Dostoiévski que ele era consciente das questões teológicas que cercavam a representação de belas imagens por toda a história do Cristianismo, especialmente na [Igreja] Ortodoxa Oriental. Seus êxitos dão crédito ao argumento de Jaroslav Pelikan de que, entre a trindade do Bom, do Verdadeiro e do Belo, é o Belo o mais difícil e mais arriscado a ser apresentado pelo escritor cristão. As controvérsias iconoclastas dos séculos VIII e IX dão testemunho de que a interpretação do belo como [algo] sagrado requer uma consideração extraordinária. “É notável”, escreve Pelikan, “que tanto o segundo mandamento em si quanto a mensagem dos profetas hebreus apontavam a identificação do Sagrado com o Belo como a tentação pecaminosa especial”. Para Dostoiévski, isso é espiritualmente e esteticamente agonizante:

Todos os escritores (…) que tentaram retratar aquilo que é positivamente belo sempre tiveram que desistir. Afinal, trata-se de uma tarefa incomensurável. O belo é um ideal, mas nem o nosso ideal nem aquele da Europa civilizada são minimamente perfeitos. Na terra, há somente uma pessoa positivamente bela, Cristo, de modo que a aparência de incomensurabilidade, de beleza infinita dessa pessoa, é, obviamente, um milagre infinito em si mesmo.

Dostoiévski tinha muita consciência dessa tentação estética de imprecisão e que nós, como leitores, teríamos dificuldade com esses personagens em suas grandes obras — O Idiota, Os Demônios (em inglês, frequentemente traduzida como Os Possuídos), e Os Irmãos Karamazov no momento em que eles tratam do Belo.

Em seus esforços para demonstrar melhor um entendimento do belo e de suas implicações morais, Dostoiévski resolveu que há dois tipos de beleza: o tipo superior ou “idealizado”, incorporado pela personalidade divina de Cristo, e o tipo inferior ou sensual de se entender a beleza. Esse tipo inferior, ao estimular nossas paixões, frequentemente incita a violência. Há evidências disso nos romances que tratam mais diretamente da estética da beleza. N’O Idiota, nos deparamos com o “indivíduo inteiramente belo”, o príncipe Míchkin, que em seu melhor momento é incapaz de evitar — e, num sentido mais profundo, é completamente culpado por causar — a morte da “absolutamente bela” (udivitel’no khorosha) Nastácia Filíppovna; em Os Demônios, o belo Stiepan Verkhoviénski (que sabemos, através dos rascunhos, que era profundamente amado e respeitado pelo autor), repreende seus compatriotas niilistas por negarem a existência do sagrado e destruírem a comunidade em nome do Belo; e em Irmãos Karamazov o pio e inocente Aliócha mostra-se incapaz de impedir o assassinato de seu pai. Muitos dos personagens de Dostoiévski surgem e desaparecem com o entendimento do que seja o belo. Nós podemos ver isso no personagem Dmitri Karamazov, quando ele reclama da grande injustiça que é o mundo criado pelo divino:

Ah, a beleza! Não posso tolerar que um homem de grande coração e de elevada inteligência comece pelo ideal da Madona e venha a acabar no de Sodoma. (…) Existe beleza em Sodoma? Pode ter certeza que a maioria das pessoas vê beleza em Sodoma (…) É horrível que a beleza não seja somente terrível, mas também misteriosa. Trata-se do duelo entre o diabo e Deus, sendo o coração humano o campo de batalha.

As interpretações de Dostoiévski sobre a beleza assim como sua dedicação íntima pela forma afligiam-lhe continuamente. Porém, é justamente através de seu sofrimento que a literatura russa e a voz da alma russa sobreviveram. Numa Rússia cuja cultura se via cada vez mais ameaçada por um colete de forças ideológico, Dostoiévski liberou seus poderes estéticos de discernimento, advogando pelos ideais transcendentais de beleza, verdade e bondade. Ele utilizou seu imenso talento para combater as ideologias políticas restritivas de Tchernichevski, Pisarev e outros. Sua imaginação literária era extensa o suficiente para englobar as grandes contradições da natureza humana, afinal ele sabia que somente uma ampla imaginação moral teria chances de impedir a maré de degradação moral que aqueles iminentes tempos malignos trariam. Profético, ele criou personagens fictícios que incorporavam os profundos sentimentos e ideias típicos daqueles tempos na Rússia, ao mesmo tempo que demonstravam características perenes.

Fiódor Dostoiévski morreu em 1881 e, no fim deste século, boa parte do mundo literário russo sucumbiria às ideias dos radicais. O realismo nas artes, o utilitarismo social e os objetivos didáticos “assumiram um caráter de tendência nacional”, nas palavras de Marc Slonim. Contudo, por um breve período na virada do século, os estetas retornariam com força. Em 1893, Dmitri Merezhkovski publicou o ensaio fundador do que seria uma renascença da nova literatura artística: “Sobre as Razões do Declínio e as Novas Tendências da Literatura Russa Contemporânea”. Merezhkovski triturou as forças positivistas e utilitaristas que então reinavam sobre a elite intelectual russa. Ele clamava por um renascimento da imaginação russa, recorrendo ao idealismo, ao simbolismo e à espiritualidade. Esse apelo a valores transcendentais foi, de certo modo, uma representação atenuada da crença de Dostoiévski de que “a beleza irá salvar o mundo”. Com a morte de Dostoiévski e com a redução da influência de Tolstói, Merezhkovski projetou-se como o escritor que buscava restaurar a literatura imaginativa em um dos períodos mais complicados da história política russa.

Durante as décadas seguintes, a cultura russa entrou em uma “Era de Prata” na qual vemos uma tremenda atividade nas artes visuais e literárias. Novos movimentos literários surgiram, incluindo o acmeísmo, o impressionismo e vários escolas do futurismo. Obras imaginárias magníficas surgiram; escritores e poetas como Aleksandr Blok, Andrei Biéli, Valeri Briusov, a jovem Ana Akhmátova, Boris Pasternak e Osip Mandelstam, além de muitos outros, estimularam a alma russa por um bom tempo. Além disso, a busca por uma arte imaginativa transcendental resultou num florescimento da teologia e da filosofia russas através de figuras como Nikolai Fedorov, Sergei Bulgakov, Nikolai Berdiaev e Pável Floriênski. Desastrosamente, boa parte desse renascimento da imaginação russa foi erradicada por Lenin e seus herdeiros com suas doutrinas culturais sufocantes e, em certos momentos, letais. Doutrinas essas que foram originalmente plantadas pelos utilitaristas radicais na metade do século XIX. Muitos daqueles iluminados autores do fim do século ou sucumbiram às imposições da revolução ou exilaram-se no ocidente; em qualquer dos casos, e com frequência, eles tiveram um final trágico.

Em A Beleza Salvará o Mundo, Gregory Wolfe escreve o seguinte:

Apesar de uma vez eu ter acreditado que a decadência do ocidente só poderia ser combatida através das dialéticas política e intelectual, hoje estou convencido de que a autêntica renovação só pode emergir das visões imaginativas do artista e do místico. Isso não significa que eu me exilei em algum tipo de Palácio da Arte anti-intelectual. Pelo contrário, trata-se da convicção de que a política e a retórica não são forças autônomas, mas são moldadas pelas raízes pré-políticas da cultura: o mito, a metáfora, e a experiência espiritual que é demonstrada pelo artista e pelo santo.

Apesar da negligência das artes por boa parte da direita, é lugar-comum dizer, como repete a escola intelectual anglo-americana de Russel Kirk, que “a imaginação rege o mundo” e que para o mundo ser governado de maneira justa, a imaginação deve ser cultivada através da vitalidade poderosa da literatura, da história e da religião. Como o Dr. Kirk coloca em Inimigos das Coisas Permanentes, “nós aprendemos com a literatura, muito mais que pela experiência pessoal, o caráter do santo, do herói e do filósofo. Na literatura temos acesso aos aspectos da condição humana que fazem a vida valer a pena”. Tanto o que as pessoas leem assim como o modo como elas interpretam a arte levam a um maior entendimento sobre quem elas são.

Assim como Dostoiévski e Solzhenitsyn, os conservadores têm de ir além da política e reconhecer que as raízes de uma ordem verdadeiramente justa devem ser regadas pelas ideias permanentes da verdade, da bondade e da beleza. O conhecimento proporcionado pelas artes sobre a vida é essencial para que a vida valha a pena ser vivida. Como Wolfe argumenta, se nós estivermos dispostos a investir nossos corações e mentes nas artes e rejeitar a ignorância intelectual arraigada na política, poderemos novamente reavivar a mente conservadora. Nós devemos “novamente colocar a contemplação antes da ação”, buscar as coisas permanentes, e nutrir as raízes que podem nos ajudar a transcender aqueles problemas que nos dividem e que podem conduzir-nos individualmente ou coletivamente à reconciliação ou à redenção. Nós temos que mergulhar nas artes enquanto ainda há tempo, antes que aquelas raízes morram.

[*] Glenn Davis. Beauty and the Enlivening of the Russian Literary Imagination”. The Imaginative Conservative, 1º de Maio de 2016.

Tradução: Jakob Gon

Revisão: Márcio Flemming

Leitura recomendada:

Clowes, Edith W. Fiction’s Overcoat: Russian Literary Culture and the Question of Philosophy (Ithaca: Cornell UP, 2004).

Jackson, Robert Louis. Dostoiévski’s Quest for Form: A Study of His Philosophy of Art (New Haven: Yale UP, 1966).

1-A obra foi traduzida recentemente para o português. Vide: http://www.livrariacultura.com.br/p/a-beleza-salvara-o-mundo-42962974

2-Conservadores imaginativos = leitores do site ou termo mais amplo.

3-As a long time student of Russian culture, I find it inspiring that imaginative conservatives are attaching to a concept (“beauty will save the world”) articulated by Fiódor Dostoiévski one hundred fifty years ago in reference to his own battles against a severe ideological movement bent on politicizing the culture of nineteenth-century Russia.

4-But as the United States had a cathartic purging of the issue through the national tragedy of civil war, the emancipation of the serfs in Russia in 1861 only seemed to aggravate the political situation.

5-Escritor russo da primeira metade do século XIX.

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