Bernie Sanders e a farsa do socialismo democrático

SANDERSpor Dominick Armentano

Com seu recente bom desempenho na pré-eleição de Iowa, o senador Bernie Sanders merece que suas ideias políticas sejam examinadas seriamente por seus admiradores e igualmente por seus críticos.

Sanders tem posições em dúzias de assuntos importantes, mas duas se destacam: Sanders descreve a si mesmo como um “socialista democrático”; Sanders afirmou em diversas ocasiões que os ricos não pagam por impostos que lhes seriam justamente atribuídos. Assim, é razoável pensar que, em um governo Sanders, haveria mais “socialismo” e mais taxação sobre os “ricos”.

O que é o socialismo democrático? De minha educação em economia, posso concluir que socialistas acreditam que o capitalismo de livre mercado é um sistema fracassado e que ele deveria ser substituído pela apropriação estatal dos meios de produção. Isso significa que todas as decisões importantes a respeito dos rendimentos e do direcionamento dos investimentos devem ser tomadas pelo Estado. A “democracia” nessa definição significa que instituições democráticas como a constituição e as eleições devem ser preservadas.

Será que Bernie Sanders realmente acredita que o “socialismo democrático” faz sentido? Provavelmente não, por vários motivos. Primeiro: um grande número de economistas acredita que o socialismo é um fracasso tanto na teoria como na prática; que ele não é um sistema econômico coerente. Ele fracassa na teoria, porque se todos os “meios de produção” fossem estatizados, não haveria forma inteligente por que os planejadores do governo poderiam decidir que combinação de fatores geraria o menor custo para a produção, ou quais rendimentos e investimentos tenderiam a aumentar o bem-estar do consumidor. A economia estaria literalmente navegando sem um leme.

Para perceber por que isso ocorre dessa maneira, devemos compreender que, sob o capitalismo de livre mercado, os incentivos dos preços e dos lucros guiam recursos para usos que os consumidores preferem em relação a outros usos alternativos. Mas, no socialismo, em que os fatores cruciais de produção (tais como capital e terra) são de propriedade do Estado, não há possibilidade de se estabelecer preços e não há incentivos de lucros e prejuízos para garantir que recursos escassos serão usados eficientemente e não serão desperdiçados. E esse chamado problema do cálculo econômico não se torna mais fácil simplesmente argumentando-se que o governo seria “democrático” ou que o intuito é de ajudar os pobres. (Recomendação do tradutor: leia O cálculo econômico sob o socialismo, de Ludwig von Mises.)

Segundo: o socialismo (ou quase socialismo), na prática, foi um desastre onde quer que tenha sido seriamente tentado. A maioria dos experimentos socialistas (vide Cuba, que vem de 1960 até os dias atuais) desembocou no confisco de rendas, em desperdício de capitais, na destruição de incentivos, e por fim no empobrecimento do grosso da população. E não se pode crer por um minuto que teria sido uma falta de democracia a condenar o socialismo ou o chamado experimento cubano. De forma alguma. Foi a rejeição da propriedade privada, do sistema de preços de livre mercado e de qualquer competição aberta entre empresas que fez do socialismo algo impraticável.

Sanders NÃO é um “socialista democrático” (o porquê de ele insistir nessa definição é algo perturbador); ele é, em vez disso, um “social-democrata”. Sociais-democratas, ou progressistas, aceitam (a contragosto) as instituições básicas do capitalismo (o sistema de preços, o mercado de ações, etc.), mas querem numerosos programas sociais para os desempregados e para os pobres, assim como querem aumentar as regulações para grandes empresas e bancos. Tudo bem, mas perceba que não há nada de terrivelmente radical a respeito de nenhuma dessas ideias. Elas têm sido levantadas por décadas. Hillary e Bernie podem discutir o quão ruidosamente quiserem sobre a reforma no plano público de saúde, mas esse ainda é um debate dentro da corrente principal progressista do Partido Democrata.

A visão de Sanders de que os ricos devem pagar “pela porção que lhes é justamente devida” pode inspirar uma agenda mais radical se nós apenas pudéssemos compreender o que Bernie quer dizer com isso. (Suspeito de que apenas significa mais impostos.) De acordo com os dados da Receita Federal de 2013, indivíduos de AGI (Renda Bruta Ajustada em tradução livre, dado com que a Receita americana trabalha) igual ou maior que $250.000 fizeram 2,4% de todas as declarações fiscais, e ainda assim pagaram 48,9% de todos os impostos; a média de taxação sobre eles foi de 25,6%. Em contraste, pessoas com renda igual ou menor que $50.000 fizeram 6,2% de todas as declarações fiscais e a média de taxação sobre eles foi de 4,2%. Como a média de taxação federal sobre os “ricos” já é seis vezes maior que a taxação sobre os (relativamente) pobres, pode-se perguntar o que Bernie Sanders entende por justiça.

Os principais presidenciáveis do Partido Democrata abraçaram calorosamente o progressismo. Devemos ficar chocados? Provavelmente não. Afinal, isso é mais chocante do que a adesão substancial dos filiados republicanos ao bombástico Donald Trump? Permanece o fato de que podemos precisar de debates inteligentes e da eleição geral em novembro para desvanecer toda essa bobagem.

Dominick Armentano é professor emérito de economia na Universidade de Hartford.

Tradução: Ramiro Freire

Texto e imagem adaptados das páginas de Ron Paul​: http://on.fb.me/212EmKa; http://bit.ly/1nPgFqD.

2 comentários

  • Roland Scialom

    Essa forma panfletária de descrever o embate entre socialismo e capitalismo não explica nada há algum tempo. Quero saber porque grande parte dos recursos da humanidade são gastos em (1) material bélico, segurança e guerras, (2) entretenimentos e divertimentos na maioria medíocres, (3) produção, consumo e comercio de drogas, (4) consumismo desenfreado de um monte de coisas e desperdício de um monte de coisas, (5) atividades religiosas de muitos matizes, administradas na forma de empresas que se acaparam de uma parte não trivial dos rendimentos dos seus fieis e em troca impedem estes ultímos de desenvolver consciência crítica e lucidez. Essas 5 atividades listada acima existem na maioria das sociedades independentemente do regime econômico dominante. Então socialismo e capitalismo são palavras para ninar analfabetos políticos e gente mal intencionada que tira proveito dos analfabetos políticos. Se Armentano é professor emérito de economia de uma universidade, pior para nos todos, porque isso mostra que os sabichões continuam escravos de clichês.

  • Hugo

    Cara, sempre tem um cara que é socialista antes e que se tornou social democracia, mas o cara é, exatamente isso, não gosta de admitir o capitalismo (aceita a contra gosto). E outra, esses partidos da europa que se dizem socialistas, inclusive tem socialismo no nome, pelo menos, alguns deles, não todos, na verdade são social-democracias, acredito que este seja o caso da França de Hollande, o nome do partido é socialista, porém não vejo eles transformando a França num socialismo de fato, mas sim vejo uma social democracia lá.

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